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quinta-feira, 21 de abril de 2011

Acorda Clara... Por favor!


Não existe um final feliz nesta história, pelo que, ficam desde já advertidos para esse facto.
Clara se alguma vez duvidou que o caminho escolhido era contra natura, cedo confirmou as suas suspeitas. Ela optara pelo fel e com essa decisão viveria resignada e por essa decisão daria o melhor de si.
Clara era uma jovem que espantava os seus pares com a sua beleza inquietante e uma inteligência incisiva. Desde tenra idade diverti-a descortinar os enredos, descobrir os culpados das tramas. Algo que fazia muito bem dentro e fora do espaço de ficção, desde que não fosse ela própria um alvo. A ela não se via e todas as suas capacidades eram inúteis para sua defesa. Aliás, no que lhe dizia respeito nenhuma advertência surtia em Clara o efeito desejado, dado que ela , simplesmente, se entregava em sacrifício, em prol dos seus ideais românticos.
_ Nasci marcada por um sentido de missão! - Diria ela com toda a convicção, embora com um triste e sonhador sorriso, pedindo-vos que desviem os olhos dos cacos de vidro que optou pisar.
Existem pessoas assim que não pisam a relva fofa porque o caminho não lhes pertence. Outros existem que não querem saber e à mínima contrariedade invadem os terrenos vizinhos como se nada fosse.
Clara sabe que exagera. O seu zelo pelos outros chega a ser um acto de auto-flagelação. Ela dá o corpo à dor e deixa que esta amordace a sua alma no seu objectivo primordial de crescer e ser feliz.
A vida é misteriosa, um nevoeiro espesso que serpenteia como língua de gelo.
Quantas vezes pensamos, em demasia, nas coisas que perdemos ou que não temos... Na verdade tudo o que perdemos de mais valioso é Tempo. Tempo que podemos passar connosco e com os outros. Mas não vemos até ser tarde demais... Depois haverá Tempo para reflectir.
Ainda que acreditando na pureza das intenções, Clara sabe do que abre mão de cada vez que inspira e se força na trilha da dor. No caminho, foi despindo e despedindo-se da fé nos outros. Naturalmente, Clara já não acredita em si. Talhada foi para se abrir ao mundo, pelo que, não tem como se barricar dentro de si. Ela é pertença de outros... Nunca foi apenas sua e nada tem de seu.
Conseguem visualizar?
Fechem os olhos. Sintam as carícias do vento nos seus negros cabelos, contemplem os contornos da rosa em seus lábios, percam-se nas curvas alvas que serpenteiam o seu corpo. Esqueçam os pés pequenos e magoados.
Abram os olhos. Vejam as estrelas flutuantes no olhar dela. Vejam como os seus olhos sorriem, ainda que mergulhados numa calda angustiada. Esqueçam as lágrimas dentro do brilho, vejam o amor.
O Amor que Clara abraça como uma noção do qual depende como o ar que respira.
O Amor do qual é profeta e nunca destinatária.
Clara ama e não se deixa amar. O amor é uma gravura no horizonte. O caminho é longo e estilhaçado. Na trilha do amor sem o poder tocar. Tocada sem o poder sentir...
Clara sorri nas lágrimas que verte e que descem ondulantes acariciando o seu corpo, beijando os seus pés.
_Anda Clara! - parece-lhe ouvir - Vem e escolhe a liberdade... Escolhe a liberdade...
Abre os olhos e continua o seu caminho ainda que meia adormecida, para que sinta apenas meia dor.
_Clara! - ouve-se o vento por entre os seus cabelos, brincando no tecido que lhe cobre o corpo e lhe venda a alma.
Ele ama-a e Clara não sabe, não sente. Pergunta-se no seu torpor por que caminhos andará o seu amor.
Acorda Clara... Por favor!

Autor desconhecido (contém hiperligação para a página de origem)

sábado, 12 de março de 2011

Amar é levar o pequeno-almoço à cama


Clara adormeceu no sofá, no colo folhas de papel e palavras com haste.
Esta semana é a terceira vez que Alex acorda com a almofada vizinha despida de corpo. Puxa-a para si como se puxasse Clara e deita-se na almofada como se deitasse sobre ela.
Não adormece. Não adormece porque está mergulhado no cheiro de Clara, uma fragrância que inebria e desperta. Desperto, preenche a cama de desejos, imagens dela, recordações de si. O calor aumenta e afasta os lençóis.
Clara estivera a ouvir música e a escrever. Isola-se num espaço reduzido, mas aconchegante. A inspiração é caprichosa, precisa de um certo ambiente. Clara transforma o espaço, altera a atmosfera e deixa-se levar, por vezes, por horas que rouba aos dois. O relógio de uma escritora tem horas roubadas, horas emprestadas, horas recolhidas, horas interrompidas, horas lembradas ou esquecidas.
Alex sabe que a criatividade em ebulição não se pode travar. Assim, como o desejo de um homem numa cama repleta de horas vividas a dois. É o seu sorriso que segue o perfume dela pela casa.
Clara adormeceu no sofá, no colo folhas de papel e palavras com haste. Dorme profundamente e não sente que Alex a carrega como se a fosse quebrar. Ela sorri, sente-se flutuar. O céu tem o cheiro amado. Um cheiro que inebria e que desperta.
Clara sente na ponta dos dedos a vontade. Morde os lábios enquanto esta se torna impaciente. Abre o corpo como um lago. Ele mergulha.
Os olhares aquecidos despiram as roupas, invadiram o silêncio com ondas de exclamações. Por vezes, entre eles, os preliminares são pupilas dilatadas. Quando assim é, por norma, o êxtase vibra com a dança das serpentes. Corpos que ondulam entrelaçados fundem-se em convulsão.
O orgasmo é melódico. As notas suadas desprendem-se e ambos adormecem.
A manhã invade o quarto e beija os amantes. O lençol encobre o movimento das almas ao despertar. Primeiro, sentem o seu invólucro, tomam posse de si. Depois, sentem o corpo do outro no movimento suave das extremidades. Parecem searas ao vento. Uma brisa entre os braços que se amam. Laços que não se desprendem, apenas brincam na leve corrente.
Os estômagos pedem alimento matinal. Eles fingem não ouvir. Olham-se nos olhos, absorvem o cheiro, rasgam o sorriso.
_ Queres o pequeno-almoço? – Pergunta excitado pela fragrância dela.
_ Sim, por favor! Outra vez!
O lençol afasta-se. Não aguenta o calor.