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domingo, 10 de abril de 2016

Apenas uma viagem


Imagina uma viagem de apenas alguns degraus.
Paredes brancas.
Fim da linha.
Último andar para um céu estrelado.

Imagina um silêncio que pesa em cada batida do coração.
Dedos entrelaçados, palavras dispersas
Brilho de uma noite escura,
na qual da pedra se fez leito .

Imagina um olhar hesitante...
Olhos devotos que se deitam com os teus,
Enquanto as palavras se perdem
nas extremidades que nos despem.

Imagina a suavidade de um abraço em câmara lenta.
O céu contido num sorriso rasgado,
entre paredes brancas,
numa cama de mármore...


Imagina apenas uma viagem de alguns degraus.
O tremor dos primeiros acordes do desejo...
O princípio da Vida.
O topo do mundo.


Se conseguires lembrar,
do que foi tão intenso caminho,
Sente o meu eterno carinho,
mas esquece que existo.

Imagina-me só...
Autor da imagem:  desconhecido





Poema destacado na PEAPAZ.

domingo, 27 de maio de 2012

Cativa



Tenho a palavra presa, engasgada, perdida entre os nós dos dedos.

Tenho-a contida, fechada, como se fosse perigosa para si mesma.

Tenho-a sufocada, chorada e sorvida no silêncio da noite que não se quer perturbada.

Sinto-a na ponta da língua, no roçar dos lábios, na fricção dos corpos, na convulsão prazerosa, no gemido mudo.

Sinto todas as suas letras, vejo todas as suas formas, torturam-me os seus significados, mas nada posso dizer e nada escreverá enquanto me tiver assim...




sábado, 26 de maio de 2012

Solidão

Um dia o vento soprou com tal intensidade que pensei que me colhia, arrancando-me pela raiz. Resisti, ora abraçando o solo, ora erguendo os braços como bandeiras da minha forte vontade. 

Era um vento passageiro, propício a todos, os que de olhos postos no horizonte, não fixam raízes…  Vi-os partir, na corrente que se desconhece a origem e que ninguém sabe para onde vai. Apenas sabiam que era feita de ar, da mesma matéria dos sonhos, e isso bastou-lhes. 

Eu fiquei... «Resisti!» 
[Loucos aventureiros!] - Pensei, enquanto justificava a minha solidão.


Ema Moura

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Entre a lua e o sol



A Alma vagueia na imensidão das horas, nas verdades que busca e que perde ao regressar. Vigilante traça voos imaginários, como uma ave engaiolada, na agitação frustrada das suas asas. O coração dorme agitado com consciência do vazio, acumulando aveludadas tristezas.

Todos nós nascemos cativos, aves de gaiola. Mas existem momentos, subtis minutos, em que a liberdade toma por referência a expressão da alma, como um sonho que se tem e que não se esquece.

A Alma não dorme, regressa ao movimento dos lábios adormecidos. No gesto involuntário do despertar, solta num murmúrio a verdade que encontrou e que da qual se despede, 

«Meu amor, a tua felicidade, longe das minhas mãos, anoitece...»



sexta-feira, 27 de abril de 2012

Pensamento: Sonho


Click na imagem para ler.

Pudesse chover assim!

Chovem gotas de água quente. As mulheres correm para a rua, apanham-nas com os seus vestidos. Singelo deleite de risos cristalinos, cabelos molhados e pés descalços, dançam como crianças ou como raparigas crescidas.

No rodopiar infantil, apanham a roupa estendida. Sorriem para as vizinhas, irmãs na alegria da tarefa. São como gémeas de rosto molhado, cabelo colado, dançando sob um céu generoso. Não importa que o cesto esteja novamente cheio. O sol há-de chegar e o vale espreguiçará, novamente, repleto de lenços perfumados.

Mas agora chove e as gotas são quentes!
Cantam as mulheres de espanto, dançam com alegria.
Pudesse chover assim, um pouco todos os dias.
Autor desconhecido (contém hiperligação para a página de origem)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Silencia o teu amor


Silencia o teu amor,
Hoje, não é amor que quero sentir...
Despe-te desses sentimentos que te fazem ter cuidado.
Não quero que me tenhas num pedestal...
Não eu que sou feita de carne.
Não eu que sou feita de amor!
Silencia esse teu cuidado,
Ruge e toma posse
É um salto do diabo,
Saltar assim tão livremente...


Fotografia de Fábio Martins (contém hiperligação para a página do Autor)


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Pensamento


Se amanhã chover - e se te atreveres - sai para a rua e dá o teu rosto e o teu corpo à chuva, sente o mesmo que eu...
Se amanhã chover - e se te atreveres - poderás ver-me correndo por essas ruas com os pés encharcados pelo riso.
Se amanhã chover - e se eu me atrever - tentarei encontrar-te nas ruas desertas...

(contém hiperligação para a página de origem)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Espero que chova




Entrego-me à chuva sem receio, como se estivesse com muita pressa para ir a um qualquer lugar. Ninguém me julga na minha urgência e há sempre alguém que se esqueceu do guarda-chuva protector.

Nos dias em que, também eu, carrego esse sinal de resignação e me resguardo da chuva, brinco às escondidas sob a lona multi-colorida. Apenas as crianças sabem o que faço e porque o faço, vejo-o nos sorrisos de uma travessura inocente.Sorriem-me porque passeio transportando o arco-íris nas mãos e também eles, se pudessem, largariam as mãos protectoras e brincariam com a chuva.
Sem supervisão, já em criança dançava à chuva e ria chapinhando com as galochas coloridas nos espelhos de água. Parece-me que me vejo de braços no ar, abrindo a boca recebendo algo que considerava divino. A água que vem do céu, esperanças infantis de uma vida abençoada.

Entretanto, cresci e enamorei-me pelo sol sem que deixasse de amar a chuva. Quente e frio, expandir ou aninhar... Quero tudo! Então, estou à espera que chova porque adoro ser sol num dia cinzento, vejo o brilho e sinto-me quente, febril... Desejo que chova para que possa correr lá para fora e longe dos olhares abrigados, rir sem freio.

Correr à chuva como se corresse para o banho quente e cremoso, tão íntimo e delicado como um abraço temperado. Deleita-me e arrepia -me o seu beijo molhado, o abraço gelado das suas gotas, as dezenas de dedos que deslizam sobre a pele. Envolvente e libertador...

Corro para chuva porque não esqueço quem sou e sabendo-o sou livre!

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Crescente distância

Caminham lado a lado num silêncio que perturba o vazio crescente entre eles.
Inspiram com dificuldade, até para atirar, para o ar, palavras banais como miolo de pão para as pombas do jardim. Palavras de desgaste rápido sobre o estado do tempo, a cor das pedras da calçada.

Ele olha em frente, Ela olha para o lado.
Evitam olhar um para o outro, pois sentem o constrangimento de quem queima fósforos sem obter uma fonte de calor.
Não há beijos roubados, nem dedos entrelaçados...

Ainda assim, Ele insiste em chamar-lhe amor e espera que ela o ame, apenas porque respira perto de si. Um dia terá sido assim, mas nessa altura Ele não lhe dava nome algum.

Caminham lado a lado em crescente distância, sonhos sem lugar comum.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Sem nada para dizer

Falaria de mim se algo tivesse a dizer...
Mas não falo porque na minha cesta,
apenas tenho palavras mudas que colhi
Frutos do silêncio que carrego em mim.

Tenho momentos fluídos, é verdade.
Mas ainda assim não falo...
Falar sem nada para dizer é um risco
O meu silêncio dá-me abrigo.
Ema Moura

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Extensão

Fotografia de: Um outro Olhar (contém hiperligação para a página do autor)



Extensão...
É como me sinto ao enterrar os pés na areia ou a mergulhar o corpo nas águas de ondulação dócil.
Também o sinto na brisa que desinquieta a túnica e nos raios de sol que me acariciam na sua ardente textura.
Extensão da própria vida, também eu capaz de gerar, iluminá-la ou cegá-la...

Poder e desamparo, alegria e tristeza, força e fragilidade, tanto de mim que me preenche, me desorienta ou me dá alento.

Sou parte de um todo e um todo repleto de partes. Sempre senti tanto a fragmentação como a pertença ao mundo. Sempre soube olhar para coisas e para os outros. Sempre os admirei na robustez dos seus troncos ou na delicadeza das suas folhas.

Cedo soube que todos temos de lidar com a dualidade que nos compõe, a que nos fragmenta e a que nos completa. A tarefa não é fácil! Contudo, a compreensão do que somos - antes de tudo - e o reconhecer do ponto onde todas as fronteiras se esfumaçam, facilita todo o processo.

Viver torna-se assim natural e naturalmente podemos viver com os olhos postos nessa linha imaginária que não é mais que um eco do caminho que tomámos.

Extensão de mim, de ti... Horizonte.


terça-feira, 6 de setembro de 2011

Caminhar


Sigo os meus passos como se fossem de um caminhar diferente, vejo como se encaminham para as ruas desertas no silêncio da noite.

As sombras tão ruidosas e intensas realçam o contraste axadrezado dos passeios. Luz e escuridão em tons graduais de branco e negro, para trás fica tudo o que é colorido.
A cidade não dorme.
Aqui e ali espectros viajantes deixam um rastro perfumado no ar. As fragrâncias gotejam dos telhados contando os minutos que enchem pequenos espelhos de água.
Pensei que teria medo ao passar junto aos becos mal iluminados, mas na verdade, apenas sustenho a respiração quando os meus passos se deixam ficar contemplando o breu desconhecido. Concentro-me nos sons que chegam: uma tampa que salta, a fúria de um gato, uma garrafa que parte, uma tosse cavernosa...
Alívio sinto nos passos apressados que sigo, respiro ao afastar-me dos becos sem saída.
Não me pergunto sobre o que ali estou a fazer... A mera suposição de acção vence qualquer discussão interior.
No fundo da rua uma ponte, do outro lado a escuridão é mais densa. Os passos hesitam sem contudo suspender o movimento. Agem como se não houvesse volta a dar ou talvez saibam para onde vamos...

Eu não sei, mas isso agora não é relevante, sigo os meus passos em seu caminho e por ora é tudo o que me sinto impelida a fazer.
Caminho, ainda que não sinta os passos como meus.
Fotografia de: Um outro Olhar (contém hiperligação para a página do autor)

terça-feira, 5 de julho de 2011

São ondas!



O vento no meu rosto perturba o equilíbrio das emoções à superfície da pele.
Sinto-as a crescer em movimentos ondulantes que se quebram nas veias. São como ondas do mar que não suportando o seu peso se entregam aos pés da areia. Rendem-se, mas não sem antes se fazerem ouvir num rugido ou numa lamuria rouca. Não são todas iguais, as ondas. Não se quebram da mesma forma...
Existem ondas que se erguem imperiosas e se abatem furiosas sobre a praia.
«Coragem é preciso! - dizem.»
Outras são como pombas brancas que se desfazem por sacrifício, uma espuma cremosa deixam como sinal da sua amorosa passagem.
«Um derradeiro esforço de existência.»
As emoções são difíceis, resistentes, persistentes... Impossíveis de deter ou domar...
Por vezes são apenas força criativa, como uma Luz que se opôs às trevas, o seu contrário natural. Outras, são como um animal amordaçado, acumulam em silêncio até não suportarem o peso, abatendo-se numa corrente furiosa, de águas tumultuosas e pouco transparentes.
«Nenhuma coleira é verdadeiramente terapêutica.»
O vento no meu rosto perturba o equilíbrio das emoções à superfície da pele.
O meu silêncio tumular não encobre as ondas agitadas à superfície da pele. São como pedras num charco, desenhando remoinhos à passagem.
O movimento superficial é aparentemente harmonioso e inofensivo, mas longe dos olhares, distante das atenções, o abismo abre-se em pequenas fendas eruptivas. O submundo é palco do teatro de emoções. A planície invadida por hordas emocionais que se opõem, arrastam catadupas e ampliam o raio de destruição. Depois, impera o silêncio carregado de dor, confusão e medo.
Na boca carrego um trago de sangue, do mesmo que me corre nas veias. Sabe a madeira que apodrece no fundo do mar, encalhada na areia, pronta para contar a história…
«Depois das nuvens negras, surgem raios de sol…»
Suspiro, pelo princípio de todas as coisas, génese do gesto capital. Foi por amor que deixei de me orientar pelas estrelas e pelo amor engoli todo um oceano…
«Conselho!»
Nenhuma emoção é particularmente fácil, isolada em si mesma. A maré é cíclica, mas nunca igual… Nunca trás as mesmas águas.
Reviver é um falso presente, um irreal refúgio. O que não foi acabou no tempo seguinte!
A probabilidade é um enunciado formulado por quem se recusa a admitir que deixou de viver. Desengane-se quem deseja apenas viver um único estado emocional e amar apenas só uma pessoa.
Vive e ama todos em teu caminho!
São ondas! São ondas as mensageiras do meu desassossego…
São ondas que me empurram para longe ti!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Ventura

Passos apressados, saltos que ribombam como trovoada, a tempestade que se aproxima, o dilúvio deleitoso…
Cintos que se desprendem da fivela castradora, tecidos que se abrem, escancarando vontades, hesitações que se põem de lado…
Meias que se rasgam como folhas outonais, frágeis entre dedos de poderosa ansiedade. Vestidos que esvoaçam animados pelo vento, renegam o momento em que foram atirados, esquecidos no sabor do momento.
«A paixão - bebida que se bebeu de um trago, grau que potencia o braseiro em nós, veicula da vontade mais genuína, abandono de todos os convénios – é um caso sério.»
Ligas que se desligam do olhar e se desfazem na seda e nos rendilhados que as revestem. Corpete, que sufoca o peito que arfa, estrangula o rubor na face que cora, evitando olhar em frente.
Perfume como uma pele protectora, um mimo que não se conta a ninguém, a gota que carregamos desnudos e que deixamos presa por entre lençóis.
«É realmente grave a paixão, quer esteja presente ou ausente, nunca se silencia, não se contenta e não se esgota… Pura energia, seiva que penetra nas veias e despeja no coração doses maciças de adrenalina.»
Movimento jocoso toma posse do corpo que baila como uma flor aos primeiros raios de sol. Um girassol que brilha, uma divindade que se homenageia. A entrega não é mais do que a aceitação em estado sólido, o abraçar da realidade num corpo que nos alimenta.
«A realidade não é dúbia! De facto, o prazer é parte de um todo que não pode ser ignorado ou maltratado. Torna-se, assim, o fogoso sentimento numa tentação severa…»
Destino, química, essência, recorrência, pouco importa as razões que levam ao inicio da aventura. Tão pouco é relevante o seu fim. A aventura deveria ser eterna, assim como, o enlace entre a descoberta e a confiança em si e no Outro.
Lição! «Nunca completamente aprendida e tantas vezes ignorada.» Viver é a aventura e os sentidos, uma bússola que nos indica se o estamos a fazer bem… Impossível ignorar, não saber…
Sorrio! – Sublinho, desenhando a felicidade e estampando-a no rosto. Cada vez mais me incomoda quem, numa onda diferente, se julga no direito de se apropriar dos passos que são meus.

O Universo não existe por mero acaso e os alinhamentos são de facto fruto de uma ciência divina. No encontro de si e dos Outros, um código e uma chave são tão essenciais como o ter um corpo e a vontade de o explorar. Sem receio, ainda que o céu se apresente com uma cortina de água, dispo-me de todos os convénios e contendo apenas essência, enlaço a aventura.
Pela paz e pelo bem, vive e deixa viver,


segunda-feira, 13 de junho de 2011

Se fosse um rebento...


Imagem: Autor desconhecido

Observo o quadro natural que se ergue perante os olhos, admiro a simplicidade do seu existir. Pergunto-me quantos antes de mim pararam, extasiados pelo movimento ondulante das folhas em suas copas majestosas. Árvores imponentes se afirmaram em terreno fértil, surgiram de frágeis rebentos, criaram raízes nas histórias dos homens.

Observo a superfície que oculta as suas densas raízes, vejo como o solo fervilha de vida e imagino-me como parte daquele todo!
A minha natureza insegura, marcada por ferimentos que não se curam, turva-me o reflexo daquele quadro. Agita-me as águas subterrâneas, já por si tumultuosas, fazendo emergir questões em catadupa:
_ Se fosse um rebento, a sombra das grandes árvores serviria de protecção? Teriam essas árvores o desejo de me privarem dos raios alimentares? Se fosse um daqueles rebentos teria espaço para crescer? Poderia, na minha frágil existência, almejar espalhar as minhas raízes?

Fixar raízes… Algo dentro de mim impele-me a levantar a âncora. Dificilmente, as minhas raízes se fixariam, ainda que em terreno fértil, isto é, se fosse um rebento. Como sou, imagino-me à deriva carregada no abraço forte do vento, tocando o chão apenas pelo tempo suficiente, necessário a uma alimentação de subsistência.
Há vidas assim… Não se fixam e não se deixam tocar.

Sei que, se fosse um rebento, gostaria de espreguiçar as minhas raízes, lançando-as no mundo, abraçando todas as direcções. Cresceria, verticalmente, no centro da rede e majestosa abriria os múltiplos braços, convidando a vida a construir ninhos por entre os meus cabelos. O vento não me faria tremer, ainda que rodopiasse, agitando ou até arrancando algumas folhas. Sorriria, ao vê-lo carregar uma trança do meu cabelo!

Logo, quando pequenos bicos reclamarem alimento, verei nos espelhos d’água, como fico bela, ornamentada por flores… Amores… Uns produzirão frutos suculentos, outros apenas sangrarão nos espinhos ocultos.
Perguntem-me porque a beleza necessita de espinhos… Eu vos direi que a formosura se reveste de saliências agudas para sua própria protecção. Por outro lado, a verdadeira perfeição obriga-nos a carregar as farpas que retiramos de outro alguém… Alívio de uns, martírio de outros.

Se fosse um rebento também procuraria transformar as impurezas em algo melhor, algo que pudesse libertar. Não sei se concordam comigo, mas julgo que só devemos dar ao mundo a melhor parte nós. O restante deve descer ao subsolo e deixar-se doutrinar pelas raízes, convertendo paz em alimento e alimento em vida. Só assim, poderemos ascender e abrir aos céus os braços sem qualquer receio.
Amores… Uns produzirão frutos suculentos, outros apenas sangrarão nos espinhos ocultos.

Observo o quadro natural que se ergue perante os olhos, admiro a simplicidade do seu existir. Pergunto-me quantos antes de mim pararam, extasiados, perante a magnitude de tão majestosas árvores, surgidas em terreno fértil e que um dia foram tão frágeis rebentos…

domingo, 8 de maio de 2011

Uma verdade trancada...

Olha para mim e diz-me o que não vês...
Sou como um segredo fechado a cadeado...
Não morro e não mudo...
Luto!

Travo uma batalha contra as outras cores...
Teimam em pintar uma outra verdade,
um outro segredo para o meu lugar...
Como se os factos mudassem num colorir de face...

Se lhes fizesse a vontade, seria livre...
Não mais dormiria só, num lugar trancado
Se me deixasse pintar, era verdade de todas as bocas
Um segredo por todos, partilhado...

Mas eu... «Olha para mim...»
Eu não sou um segredo pré-fabricado!
Diz-me o que em mim vês...
O que não vês em qualquer outro lado?

Não sou um segredo do mundo!
Não vos prendo pelo meu encanto...
Sou uma verdade trancada,
esquecida no meu recanto...

Olha para mim e diz-me o que não vês...
Sou como um segredo fechado a cadeado...
Não morro e não mudo...
Luto!


Obrigada Margarida Castro pela música que o inspirou!

quarta-feira, 4 de maio de 2011

À deriva

Autor desconhecido (contém hiperligação para a página de origem)


Viajo nesse rastro do outrora,
do que não foi e do que poderia ter sido
e perco-me entre amargas lembranças
que não deixam esquecer os sorrisos
e tudo o que poderia ter acontecido.

São breves momentos esticados e entrelaçados
por fio sintéticos que a vida não quis tecer.
São momentos falsamente vividos, pré-fabricados,
tecidos por nós para nós, falsa vida de um falso viver.

Ser Criador de um nada e viver uma existência sem existir.
Um consolo sem consolar…
Ser tudo e ter tudo…
Coisas que a vida não me quis dar.

Um pico acima e um pico abaixo
É o Céu e o Inferno
O Amor e o desgosto
Um abraço e um safanão
Horas de fome, outra de abundância
O Inverno e simultaneamente o Verão.

É ser artista de circo, malabarista ou trapezista
Viver do perigo, com o perigo e para o perigo.
Do calor dos aplausos à solidão da noite.
Das taças erguidas ao copo solitariamente vazio.

Viver a vida de mãos atadas,
pedir socorro sem falar,
definhar e jorrar vitaminas,
na esperança de uma palavra ou um olhar.

É mais fácil deixar morrer do que viver para salvar
Todo o esforço se perde em mais uma agressão.
Ciúme, um dia. Desgosto sempre!
Caímos nas malhas da tola discussão.

É tão fácil olhar para trás e fazer de conta
que as lágrimas correram em vão
por erros cometidos e duramente punidos…
Justiça não foi feita e a merecida recompensa
foi sempre alimento de uma só refeição.
Pedaço de pão duro, osso duro de roer,
pequeno alívio de tão difícil digestão.

Sonhos de reconciliação, pura combustão carnívora ou sexual,
fome avassaladora de engolir esse mundo…
Mas tudo se vai esvaindo, tudo nos vai fugindo
e depois, quando tudo acabar, a culpa até foi nossa:

Secámos e não amámos o suficiente.
Não fomos até ao fundo do poço.
Apenas andámos à deriva…
Abaixo do nível do Inferno.

segunda-feira, 25 de abril de 2011