Mostrar mensagens com a etiqueta Eros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eros. Mostrar todas as mensagens

sábado, 9 de junho de 2012

Proposta


_Pense na minha proposta - disse ela batendo com o cartão na mesa sem desviar dos olhos dele - poderá contactar-me nesse endereço, telefone primeiro.

Enquanto ela se afastou, ele não se moveu, Parecia pregado ao chão, concentrado no pequeno papel deixado sobre a mesa. Por um milésimo de segundo, tudo desaparecera. A venda da propriedade, as dívidas, as obrigações familiares, todas as preocupações. 


A pancada seca na madeira despertara-o do transe. Nesse feliz vazio, onde se encontrara, apenas tomara consciência da presença dela, não ouvira qualquer proposta. 

Sacudiu a cabeça, deslizou os dedos pelos cabelos, soltou uma gargalhada tensa como se o libertasse de algo. Ainda assim sentia-se amarrado e os seus dedos seguiam hipnotizados os aromas que emanavam da mesa e num impulso levou o pequeno papel ao nariz... Rosa, jasmim, violeta, flor de laranjeira, gardénia, madeira de cedro, sândalo e âmbar...


No bolso da camisa, junto ao peito, ardia e seduzia-o a ideia de voltar a vê-la. Recordou os olhos expressivos, a tensão palpável, o movimento dos lábios. A verdade batia-lhe no corpo como ondas de calor. Não havia proposta alguma, apenas um «estou aqui, segue-me, vem».




quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Tudo o que sempre quis...


À deriva,
como pó cósmico num imenso universo,
é nas estrelas que me procuro,
é nas estrelas que encontro...
O teu rosto, por entre todos os que se cruzam comigo.
Nada de especial - diria - se não fosses tudo o que desejo
Ainda bem - penso - que o meu desejo é mudo...
Amordaçada no prazer,
o teu nome arde-me nos lábios.
Sussurro, por entre dedos mordiscados,
tudo o que sempre quis!
O meu corpo em delírio
alma minha que perco,
sem medo,
sem castigo...



quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

sábado, 5 de novembro de 2011

Obsessão

Respiro e concentro-me no caminho que seguiste,
penso no homem que sempre desejei que fosses,
nos gestos assertivos que nunca tiveste.

Suspiro e caminho seguindo o rasto agitado
de um vento que fustiga em abundante arrogância.
Temo pelas horas que não traz de volta...
Horas sem ponteiros que agravam a distância.

Penso nos teus pedidos sussurrados
como carícias carentes de afecto,
perdendo-se pela carne,
nunca atingindo a alma.

Quem sou, tornou-se a mais importante interrogação.
Muito mais do que essas outras ladras do tempo:
Quem és tu e onde estás? – Perguntei-me incessantemente.
Respiro, suspiro e penso!

Penso neste sentimento que já conheceu o sol.
Agora, oculto-o entre as nuvens cinzentas
para que possa sussurrar nos dias de tempestade.

Adoro que chova porque o sinto!
Rosto molhado, frio que se entranha na pele.
São fios de água, que descem desse céu barulhento,
atraídos por este corpo que o tempo não parou.

Desolado deserto ou solitária ilha?
Vivo a miragem do náufrago,
agarro-me ao nada que me dás:
_ Uma fome imensa, uma fome intensa!

Poema sem sentido, este fogo habilmente tecido
por actos imaginados tão pobremente vividos.
Sim, recordo os beijos roubados, molhados,
e os crescentes pedidos gemidos e sofridos.

A minha alma perdida
entregar-se-ia ao devaneio carnal
por esta obsessão visceral,
este querer-te tanto,
porque te quero ainda…

Voltar…
Respiro...
Suspiro...
Penso no dia...


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Quero-te outra vez...

Respiro...
Suspiro...

O corpo lateja e alma flutua no esquecimento
A loucura cometida deixa-me deliciosamente à deriva.
Sinto-me senhora e odalisca
Saciada por um momento,
sôfrega no mesmo instante...

Sim, surpreendo-te!
O meu apetite não tem limite
Apetece-me a tua voz sussurrada,
assim como os desvarios gritados
que ecoam nos recantos.

Juntos...
Despindo as máscaras e armaduras,
entre beijos repletos de carícias,
gestos que nos incentivam
a aceitar tudo o que o outro é
e a possuir tudo o que nele existe.

Sim, surpreendo-te!
Imolo-me no fogo que criamos,
Possível apenas porque amamos
amar a carne com alma.
Pouco importa que na boca dance o pecado,
Melhor sorte não tem quem assim
nunca foi amado...

Não temas pela alma perdida...
Deixa-te ir à deriva neste caudal abençoado.
Não é loucura esta alegria desmedida,
este prazer no acto consumado,
momento a que chamamos destino.

Respira...
Suspira...
Quero-te outra vez...


Autor desconhecido (contém hiperligação para a página de origem)

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Tortura, anseio...



Cravo os dedos na tua pele, desenho um caminho escarlate.
«Assim, ferindo-te até que me traves o movimento»
Pulsos presos entre os teus dedos, olhares desafiantes
as bocas chocam intensificando o tormento...

Tortura...
Gemidos que se ferem entre dentes
lambuzam as línguas sedutoras...
As roupas esvoaçam em movimentos ascendentes.

Pele... Enfim livre da película que nos envolve
Despidos de máscaras
Vestidos das cores do desejo
Tortura, anseio...
Autor desconhecido (contém hiperligação para a página de origem)

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Inspira, relaxa e divaga... Suspira!


Bate a porta furiosa, fecha-a como uma barragem que sustenta as águas agitadas pela tormenta.

Abre a porta do armário procura o seu reflexo trancado e como se o tempo não sentisse, admira o rosto marcado.

Inspira, relaxa e divaga...

Preocupa-a o fogo. Essa chama alta que a atormenta e a instiga a não aceitar o quotidiano bafiento, cozinhado em banho-maria.

Suspira, encostada a um canto de olhos postos numa cama que não quer ocupar. Ali, as rendas não se desfazem e as roupas não esvoaçam como lenços largados ao vento.
O espaço encolhe, como se a realidade a quisesse acordar do seu torpor. Mas que realidade?
Aquela que lhe diz que é normal que os sentidos mirrem ou a outra que diz que é por falta de amor que não sente?
Procura novamente o espelho, observa as marcas no rosto e no corpo. Não deu pelo tempo passar, mas este corre para uma meta que poucos pretendem alcançar... Pelo menos, não tão cedo.
Não pretende parar o relógio, apenas gostaria de encher as horas com mais do que o dia-a-dia de que todos se queixam.
Ela não se queixa, mas lamenta... Barricada no seu canto, afasta-se da realidade que lhe bate à porta e mergulha na espiral das possibilidades infinitas. Liberta-se da dor e abraça o fogo que sente dentro si, alimentando-o com gestos que cultivam suspiros.
Cresce um jardim naquele lugar trancado.
As trepadeiras selvagens esticam-se cobrindo tudo. Apenas a cama parece não ceder à transformação do espaço, mantendo-se aquilo que na verdade é: um espaço onde dormem vontades.
Com um brilho nos olhos, inebriada pelo perfume deste jardim secreto, ela salta perturbando os lençóis de um branco esticado. Pouco lhe importa o seu queixume, rodopia dançando, engelhando-os com a sua vontade.
A sua vontade … «Pensa, tocando nos lábios para a sentir melhor.»
Enrola o corpo nos lençóis e deita-se, ouvindo-os suspirar de alívio.
Pausa, apenas por um momento.
Um momento apenas enquanto a sua respiração se concentra no ritmo crescente.
Agarra o tecido, esfrega-o, leva-o à boca e, como lhe falasse ao ouvido, murmura:
_Por minha vontade serias sempre um lençol suado, enrolado num sorriso adormecido. Nunca esticado como se a vida apenas fosse vivida lá fora.
Rasga a renda que lhe venda a pele, arranca o tecido que lhe cobre os sentidos, deixa fluir o gemido …
Inspira, relaxa e divaga... Suspira!

sábado, 24 de setembro de 2011

Amarro-te!


Amarro-te!
Prendo-te no olhar
Laço mais forte não existe
Não poderás fugir
Não poderás gritar...

Amarro-te!
Tenho-te submisso
Escravo dos meus caprichos
Sede que não sacio
Apenas porque me dá prazer
Ver-te...

Amarro-te!

Privo-te de me tocar
Danço à tua volta
Invado a tua mente
Ouves e sentes-me...

Amarro-te!
E amarrado tenho-te
Enquanto crio pontes com o corpo
Caminhos que subo e desço
Pelo prazer que me dá
Ter-te...

Amarro-te porque o meu laço
te liberta
E enquanto o amor desperta
tenho-te assim,
Cativo em mim.

Autor desconhecido (contém hiperligação para a página de origem)



quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Espero


Autor desconhecido (contém hiperligação para a página de origem)

Porta aberta para o jardim
Pomar de pessegueiros
Fitas de seda perdidas de riso
Ela espera
Ele vem

Cordas de cetim e penas de avestruz
Máscaras de veludo e porcelana
Sonho de Eros
Ela espera
Ele vem

Cama aberta e convidativa
Lençóis com aroma de pétalas de jasmim
Expectativa húmida
Ela espera
Ele vem

Túnica aberta
Pele trigueira e perfumada
Andar felino
Ela espera
Ele vem

Lábios entreabertos
Respiração em ai
Dedos cravados como trepadeiras de veludo negro
O travesseiro treme e geme na antecipação
Ela espera
Ele vem...
Vem...

Hoje, o céu é meu...

Autor desconhecido (contém hiperligação para a página de origem)

Esvazio a mente, deixo entrar a música e o corpo ondula desenhando a corrente de uma brisa de verão.
A cada batida do pé esqueço as cores artificiais e sinto a terra, o seu cheiro e as suas múltiplas combinações coloridas. Os braços esboçam os contornos das asas, as mãos hipnotizam com o movimento elegante das serpentes. Olhos semi-cerrados, sorriso prazeroso, não penso, danço.
A pista não é mais um círculo fechado repleto de gente. Os sons tribais que a enchem potenciam o transe a que me entrego. Não obstante, a escuridão não é completa.

Sinto-o a chegar e a descarga de adrenalina é inevitável. Senti-o como se uma pedra caísse no charco, criando o movimento, arrancando-me do abandono. Existem pessoas que afectam o ambiente, outras que captam essas sensíveis mudanças. Em alerta percorri o espaço. Esforçando-me na contra-corrente, procurei atingir a fonte. Na penumbra, ele sorria e os seus olhos atraíram os meus.

Por breves minutos voltei a ser uma chávena cheia. Muros ergui na breve tentativa de bloquear a luz e ofuscar a presença. Na verdade criava paredes com janelas que me permitiriam vê-lo sob a falsa ideia de protecção.

Dois passos arrastei na direcção no bar. Pedi uma gaiola para os meus impulsos, algo que travasse as pernas e que me colasse ao chão. Na verdade, o liquido que levei à boca desfez o açaime.

A Razão organizava, uma vez mais, a lista dos prós e contras. Ao recordar as minhas fugas e como o corpo lhe doera em todas as fantasias boicotadas, abandonou a tarefa a meio... Sem trela a vontade rugiu tomando posse, soltando vocábulos de puro desejo, eclipsando qualquer vislumbre de um Amanhã turbulento.

_ Vem! – Afirmo convicta da única solução para a minha fome.

Imaginem-vos dependentes de um alimento, raro, capaz de saciar a fome e a sede. Comparem-no a um oásis após uma penosa caminhada no deserto. Sombra, alimento e água ao alcance de um abraço… A fome ciente da privação é agreste, arrepia e crispa.

Sem esperar qualquer resposta fui para o exterior. A brisa marinha impregnada de música agita suavemente a superfície salgada. Instintivamente segui rumo à praia, deixando o meu rasto na areia prateada e silenciosa.
Os seus passos não tardaram a imprimir as vibrações que me assustam tanto quanto as desejo. Em resposta, a febre apodera-se, os olhos semicerram até sentir o veludo quente, a boca húmida, a língua sorridente. Abraço-o como se pudesse conter o Tempo, beijo-o como se pudesse criar um Presente Infinito.

Perfeitamente encaixada, assusto-me perante o sentimento de plenitude. Se mergulhar, se me deixar ir… Ao conhecer o Céu não terei eu uma maior noção do deserto em que vivo?

Hesito e hesitando preparo-me para uma nova fuga.
Como se adivinhasse, senti a pressão dos seus braços obrigando-me a fitá-lo. Sorriu e eu mergulhei no abismo dos seus olhos, de encontro à pele que nunca senti… Estremeci...

As mãos ondularam envolvendo-lhe o corpo na dança das serpentes, as línguas marcavam o ritmo. Parei para que me olhasse, enquanto alimentava as chamas do desejo. Ele arqueava e estremecia. Fechava os olhos e gemia. Sorria e os seus olhos eram o tecto da noite e todas as estrelas que esperava ver…

Quando a última peça de roupa planou até ao areal entrámos no mar prateado. As longas carícias prometiam um alívio em êxtase, os beijos confirmavam-no. Na união dos corpos, a carícia lunar resplandecia, sob a sua luz todos os sentidos eram igualmente amados.

Agora, era eu que fechava os olhos… Cerrava-os na incapacidade de conter as emoções que escapavam em suspiros alados. Harmonia e perturbação entrelaçavam-se no epicentro do prazer, criando ondas circulares de quente e frio. Incorporámos o movimento crescente da maré e sob o efeito da lua, na rebentação das ondas, entregámo-nos ao prazer que se sobrepõe a todas as coisas… Doce esquecimento…

Flutuo...
Desperto no céu e beijo-lhe a boca.

Amanhã não sei como será, mas hoje… Hoje, o céu é meu.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Delírio lunar



Suspensa no infinito lácteo estou cativa dos teus segmentos de vida. Não é fácil a espera pelo renascer e nem pelo teu despertar, mas prometi ao Tempo nunca apressá-lo para que não precipite o teu fim.
Aguardo-te nos meus lençóis de marfim cintilante, cortinas de luz que lanço na vigília dos teus sonos.
Virás até mim… Eu sei e espero!
Na minha inquietude, sobretudo nas noites em que permaneço oculta, passo os dedos no meu instrumento de corda, sinto as suas vibrações melancólicas e deixo que cresçam palavras que falam de amor e de saudade… Acordes que se confundem com o suspirar de Vénus, lanço na poeira cósmica para que não perturbem o teu fluir… Um dia, como se te desprendesses do sopro da Vida, leve como o ar, deixar-te-ás ir e eu estarei aqui, à espera.
Nas tuas breves vidas e a cada reencontro, anseias pelos meus segredos…
Os tempos que temos nunca são suficientes para que possa iniciar uma narração além horizonte... Transbordando carinho, não é a História do Homem e da Origem dos Tempos que te conto.
Como um eco de sereia narro a tua própria vida e como esta se tornou parte da minha… Confesso, como fiquei cega desde a tua primeira vida… Como nada mais existe além de ti e como, mato o Tempo em quartos que crescem e minguam apenas como uma luz de presença.
Ao meu esplendor retomo a cada noite da tua presença… É por ti que brilho e é para mim que olhas como resposta ao meu chamado…
Namoro-te até que te enamores e depois deixo que venhas e que te deites nos meus lençóis de marfim… Nessas noites, estou cheia, repleta e resplandecente… O meu corpo é a harpa que tocas e o acorde que arrancas fala de sedução, paixão, saudade e amor.
No meu delírio, os oceanos agitam-se e crescem, absorvem os meus cristais de água em movimentos profundos, como as carícias que trocamos para deleite dos nossos corpos e paz das nossas almas.
Em êxtase, deixo-me ir e flutuo até à aurora humedecer os campos e despertar a vida que corre além de nós… Até ao momento em que tudo acaba ou recomeça sinto-te como uma febre agitada, uma bússola orgânica, uma euforia profunda, noites em que sou apenas uma mulher nos braços de quem ama.
Hoje, não me roubas ao céu porque não lhe pertenço, há muito abandonei a sua superfície gelada.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Encanto


_Aninha-te... -Sopro ao teu ouvido...
O teu corpo derrete-se ao meu pedido e tranquilo respira num sono leve.
Sabes que te seguro e nada temes, cedes ao teu sono embalado...
_Deixa-te ir...-Sopro ao teu ouvido...
Flutuas sem medo ao meu pedido e sereno, o teu sorriso é um voo rasgado
Sabes que te abraço e nada temes, não irás sozinho seja qual for o lugar...
Nino-te com o meu cabelo perfumado, deixo que os teus dedos o tenham entrelaçado, como se pudesse ter-te ainda mais abraçado.
Sinto-te despertar no veludo carnudo da minha pele... Vejo-te em mil gestos de carícias semiconscientes... Estás entre o sonho e a realidade e eu estou em ambos os lados.
Amas-me!  Certeza que aceito de olhos fechados, queixo sonhador, pálpebras orvalhadas pelos beijos depositados.
_«Aninha-te...» - sopras-me ao ouvido.
O meu corpo rende-se ao teu pedido, derrete-se com o passeio atrevido dos teus dedos.
Sei que estou segura, pelo que nada temo, o meu desejo começa sereno e eu deixo-o crescer...
_«Deixa-te ir...» - Sopras-me ao ouvido.
Flutuo em vagas de calor a teu pedido, o meu sorriso expande-se em ais que querem mais e mais...
Sei que me abraças e nada temo, o teu corpo, de encontro ao meu, procura-me e no mais profundo de mim jamais estarei só...
Ninas-me com o teu cabelo suado, deixas que os meus dedos o tenham agarrado, como se pudesse puxar-te mais para mim.
Sentes-me orvalhada no veludo carnudo da tua pele... Vês como me desfaço em mil carícias de consciente ardor... Estou entre o sonho e a realidade e tu em todo o lado...
Amo-te! Certeza que aceitas de olhos fechados, queixo trémulo, boca comprimida em mais um beijo molhado...
Autor desconhecido (contém hiperligação para a página de origem)
Obrigada Margarida pela música que o inspirou.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Penso, rendo-me e sorrio

Viro a cara ao vento porque me beija com areia, não obstante, a praia está como gosto: propícia a passeios pensativos.
Os pensamentos são como uma constante monção: inundam-me e dão-me vida.
Gosto de pensar.
Umas vezes deixo os pensamentos fluírem, outras procuro sabotar o seu curso ou dominar a ordem do dia. Tarefa ingrata, esta última.
Sorrio...
Penso como sorrio bastante quando estou a sós. Talvez seja porque não preciso justificar o sorriso, dizer porque existe em cada momento que emerge. Imagino que a musa do Mona Lisa não terá tido descanso. Com um sorriso tão enigmático deve ter sido assaltada por muitos inquiridores...
_ Ah, Mona Lisa que segredos ocultas no teu misterioso sorrir? - Penso e sorrio.
Prossigo o passeio por entre as rochas. Procuro o meu sofá revestido de algas. Local onde me instalo e me entrego ao que apetece.
Hoje, não há ordem do dia, no entanto, gostaria que não nos tivesse no horizonte interior… Estou verdadeiramente saturada de sonhar acordada. A corrente de imagens é forte e eu...ou remo contra ou deixo-me levar. Qualquer uma das opções é cada vez mais esgotante.
Imaginem um data show ininterruptamente passando as mesmas imagens. Não importa onde estejam ou o que estejam a fazer! Se combato, as imagens ficam ali encravadas, martelando a cabeça, ainda que finja não ver ou sentir. Se me deixo levar, o olhar fica vazio. Ausento-me enquanto mergulho na corrente de lava que existe dentro de mim.
_ Normalmente, acalmo a viagem com um banho frio... - Penso e sorrio.
Por cada recordação real, mil dados novos dão novo colorido à ficção. Registo uma vida repleta de gestos que não existiram e respiro com dificuldade perante as emoções que sufoquei.
Dizem que o tempo apaga tudo, mas eu continuo a rever, com muita clareza, todos os passos que dei para perpetuar o meu jejum. Neguei-te e isso fez de mim uma Judas. Condenada a inspirar sem ficar inspirada…
Suspiro e levo as mãos aos lábios e ao peito, sinto o toque da lava em mim… Se te olhasse teria a boca naturalmente pintada de vermelho vivo. De olhos semicerrados ouço, com atenção, a respiração crescente.
_ Virada para mim mantenho-me quente. – Penso e sorrio. Deixo-me ir…
Da minha poltrona vejo o mar. A primeira vez que me tocaste também tínhamos o mar pela frente. Provavelmente, não te recordarás mas rir era uma constante entre nós. Não era preciso perguntar porquê.
Sempre estranhei essa tua capacidade de extraíres de mim toda a dor. Através de ti, tinha acesso a um mundo desconhecido e eu não acreditei na felicidade que me oferecias. Duvidei como uma criança nascida de um ventre sacudido, espancada à nascença. Tu não o sabias e eu não o contei, a dor era a minha zona de conforto e o ambiente que viria a reproduzir.
_ Acreditei que me darias acesso a uma felicidade maior, para depois me deixares cair num patamar abaixo da condição miserável em que vivia. Ao crescer, a época de caça abriu durante todo o ano e eu não aceitei que te tornasses num mero caçador. Qualquer um, menos tu… Parece-te lógico? – Sorrio e penso.
Não obstante, certa noite, o meu corpo vestiu-se de seda perfumada e a pele ardeu numa febre que se alimentava de olhares, sorrisos e beijos. Não transpus a porta do meu quarto. Ali fiquei trémula e quente. Não compreendi o que sentia e hoje mesmo, confesso, jamais ter sentido desejo igual. Nem a melhor sequência de orgasmos teve o mesmo impacto, a lava limita-se a correr, vagarosamente, os canais ocos em mim. Não há lugar a explosões de desejo, apenas estremeço numa contracção involuntária e convulsiva dos músculos, um encerrar das horas de prazer proporcionado.
_ Orgasmos sem êxtase! Apenas alívio, descompressão… - Sorrio e penso.
Ainda que não saiba o que é fazer amor no mais puro arrebatamento e na mais apaixonada entrega, sei o que é o sexo puro e duro a que chamam de amor. Talvez também o seja, não sei… O único termo de comparação está no beijo que não incendeia, no pulso que não acelera, na face que não arde.
_ Os teus beijos eram como ferros incandescentes e os teus olhos um vertiginoso abismo. Caí e fui marcada com o meu próprio fogo, assim o repete a lava no seu devastador deslizar… - Sorrio e penso.
De olhos fechados, voltada para nós, ardo nas horas que roubo para mim. Deixo-me ir e um ritual antigo recomeça… Os meus cabelos levo à boca, os dedos deslizam pelo rosto, as mãos espalham cabelos na almofada, os nós mordo e desato, o corpo lateja na vontade insana de te ter, realmente, um dia, uma vez…
Viro a cara ao vento porque me beija com areia. Penso, rendo-me e sorrio.

domingo, 17 de abril de 2011

Não te dispas...Ainda...


Cala a boca, deixa apenas o sorriso!
Não te dispas... Ainda...
Quero olhar para ti, saciar a saudade que sentia de só te ver com os olhos da Alma.
Eu sei quem és e a quem pertences, mas não te reclamo.
Apenas porque te amo, deixo-te sempre ir vestido das certezas que te defendem neste mundo.
Apenas porque te desejo com todo o sopro da vida, tenho de fazer cair cada peça de roupa que trazes vestida.
Mas por ora não te dispas... Não quero distrair-me enquanto olho para dentro de ti...
Eu vejo-to! Assim como o fio que atei para que te pudesse encontrar sempre...
Mas porque te amo, somente por isso, vejo-me obrigada a recuar quando te descubro.
Mas porque te desejo, somente por isso, tenho de ter sempre que te encontro.
Cala a boca, deixa apenas o sorriso!
Sabes que te largo para que me encontres também!
Abre a boca apenas quando puderes dizer que me vês como eu te vejo a ti.
Somente nesse momento, amor, deixa as roupas no chão e vem até mim.



Autor desconhecido (contém hiperligação para a página de origem)


sexta-feira, 15 de abril de 2011

Uma sede crescente...


Noites quentes, maré de multidões.
Rumo sem bússola de encontro ao destino. O meu signo diz que este mês eu vou ver-te... Para que me encontres vagueio pela rua todas as noites. Nunca entro em lado nenhum, limito-me a passear, mas hoje, tenho uma sede incómoda.
Um lugar pequeno com balões de luz suspensos atraia o meu olhar, a música que parece suspirar atrai os meus ouvidos. Ali estou parada, mordendo os lábios enquanto a sede consome-me a garganta.
Dirijo-me ao balcão, peço um gin tónico forte, a sede é imensa...
Sento-me ainda com os olhos no balcão e no copo que se prepara para mim. Ao desligar o olhar da sede, deixo-o deslizar pelo ambiente, Ao voltar a atenção para o que está à minha frente recebo o copo que pedi... fecho os olhos e sinto o vapor que se forma na garganta. Ao abri-los, estás tu sentado na minha frente, olhando-me como eu te olho.
Os nossos olhares são como ganchos que se encaixam e nós estamos agarrados a uma sincronia sem igual.
Eu bebo, tu bebes.
Eu toco-me, tu tocas-te...
Eu engulo, tu engoles...
Eu levanto-me, tu levantas-te...
Eu caminho, tu caminhas...
Sinto os teus passos, o som ecoa nos meus olhos que brilham.
Abro o carro, tu entras.
Nem uma palavra proferida, um caminho traçado. Simplesmente deixamos-nos ir...
À minha frente as habitações escasseiam e dão lugar à vegetação. À direita um caminho de terra batida, depois à esquerda um arvoredo extenso. Estaciono no centro, desligo o motor.
Eu abro a porta, tu abres a porta.
Eu deslizo, tu deslizas...
Olhos nos olhos, dispensando todas as palavras.
Estamos frente a frente. Tu olhas para a porta do carro e para os assentos de trás, eu encosto-me ao motor do carro e vou subindo.
Observas os meus passos, o som ecoa nos teus olhos que brilham.
Estou deitada no tejadilho sem inveja do céu, quero-o oculto... O meu desejo é concedido à medida que te vejo chegar. O teu rosto cobre todo o campo de visão e o teu corpo cobre o meu...
O teu sorriso arranca o primeiro som da minha garganta em chamas.
O meu gemido atrai o teu.
Os nossos lábios abafam o som que produzimos e os dedos nos cabelos expressam a intensidade do que não dizemos... Os beijos que trocamos fazem arquear os corpos. O meu arqueia e abre-se, o teu cresce e fecha-se...
Sinto cada toque, cada movimento como um sopro de fogo crescente. A garganta explode num redemoinho de gemido, riso e dor. O prazer é tão intenso que doí!
Empurro-te, afasto-te, tu deslizas para o lado.
Olhos nos olhos, sorriso rasgado, garganta em chamas.
Deslizo até ao capô de corpo fechado, perdido de riso...
Tu desces e de pés no chão chamas-me para terra. Sem uma palavra, um deslizar de mãos que puxam o meu corpo para ti.
Eu deixo-me ir...
Já não sinto as costas no carro, estou no ar, estou na terra...
Estou contigo...
Contigo!
Estou em chamas e a minha sede é crescente...

                       
                                            

quinta-feira, 14 de abril de 2011

As noites da Pantera...

A noite chegou como se alguém tivesse atirado um pano escuro sobre o sol. Com ela, as nuvens de humor negro explodiram em gargalhadas de luz e risos grossos em forma de lágrimas.
Sobressalto a cada raio, passo agitado orientado para o abrigo.
A imagem da paragem de autocarro, à entrada do parque, serve de consolo, assim como a do banho de imersão e a da chávena de chá quente.... Corro, sem me importar com os lençóis de água que me encharcam os pés e salpicam o corpo.
A chuva e o eco dos meus passos, a trovoada e o compasso do meu coração têm um efeito afrodisíaco em mim, como aquela dança que dança e enrola sem par.
Abrando para apreciar o meu próprio medo, solto o riso com a mesma ferocidade do trovão, estico-me como se não pudesse esperar pelo toque da água. A minha mente é ágil como o salto da pantera, as minhas unhas obedecem ao comando e transformam-se nas garras que cortam o tecido.
Eu já não sou a potencial presa, tarde demais para isso. A transformação já se deu e cada passo meu é um ronronar felino... Lambo os lábios e identifico sabores... Brinco!
Salto e brinco sem me preocupar, livre estou de qualquer orientação. Dou o corpo à vegetação e esta ou cede ou quebra!
A luz de um céu electrificado não me desorienta, rosno a cada ameaça... Desafio!
Enrolo-me nos lençóis de água, deslizo no verde escuro do chão alagado. Sem medo, sem pressa.
Despejo a taça da moral humana, deixo transbordar a taça do animal.
A minha língua na minha pele, como um gato que lava a pata.
Cuidados de mim para mim.
O céu agita-se, ilumina-me o corpo com os seus flashes e eu grito-lhe:
_ Também os meus olhos brilham no escuro!
Estamos em transe, o céu e eu!
Tudo se encaixa com a mente vazia (há espaço para rodar as peças).
Não dou pelas rajadas de vento que empurram a tormenta para longe e as nuvens já não dão gargalhadas, têm a boca aberta pelo espanto e deixam a lua escapar.
Ali fico eu, alinhada com o mundo natural, como se flutuasse... Não estou à deriva, não poderia ainda que quisesse!
Na pálida luz vejo o fio que me prende ao lugar e à forma. A brisa espalha-me, deliciosamente, o seu sabor pela boca e os meus olhos cravam-se na silhueta que reconheço, procurando o brilho dos seus dentes. Logo os terei mais de perto infligindo-me uma dor prazerosa...
Não é amor o que fazemos, é guerra. Damos o corpo à luta até que o cansaço nos vença. Nessa altura, viro costas e cada passo meu é um ronronar felino.
Tal como não existe um amanhecer a dois, também não há lugar para o adeus.
Outras noites serão as noites da Pantera...



quarta-feira, 6 de abril de 2011

Uma vontade que não cansa...


O morder do lábio inferior é mais ruidoso que os passos que dou, assim como o movimento dos lábios que deixa escapar desejos e sorri...
Observo o teu dormir, ainda transpirado e suspirante.
Eu estou desperta, atenta aos minutos de um relógio pouco apressado.
Interrogo-me de quanto tempo necessitarás para esse sono descansado. Quero-te assim ainda molhado ou deixo-te secar?
Giro na ponta do pé e flutuo até à parede mais próxima. Encosto-me e sinto-a fria na minha pele quente... Não tempera, não acalma e nem abranda, apenas refresca.
O movimentos dos lábios que sorri é mais ruidoso que o toque no tecido que me veste a pele. Um tecido diferente do que aquele que repousa agora no chão do quarto, lugar para onde foi atirado e esquecido... Já teve o seu minuto de destaque, já mereceu a tua atenção.
Deixei-te dormir e escapei do teu abraço.
Água bebi pelo corpo todo, novas fragrâncias esfreguei na pele.
A gaveta abri com todo cuidado e os dedos esvoaçaram carinhosamente por entre os tecidos ali guardados. Em bicos de pé, de lábios ruidosos procurei uma textura compatível com o aroma e com a vontade.
A vontade que não pára, apenas abranda para depois acelerar no plano que concebe e nos gestos que o tornam claro.
Agora estou aqui nesta parede nua que me recebe e neste calor que não cessa.
Um movimento teu e o sorriso dilata-se, observando a mão que procura o calor que deixei na almofada nua.
Outro movimento teu indica que a tua pausa está à procura de mim.
O movimentos dos meus lábios são mais ruidosos de que as mãos que imprimem ao tecido a vontade que aumenta e que tem um plano desenhado.
Quero-te acordado e de pé!
Sorriso rasgado, inundado por cada movimento teu.
A ponta de pé gira e mostra-te toda a pele que o tecido não cobre.
Encostada à mesma parede arregaço o tecido muito lentamente, parando por instantes a cada sorriso teu.
Estás desperto e alerta lês o plano que desenhei no meu olhar.
Nos teus olhos antevejo as surpresas que me reservas, os gestos que espero quando a investida não tem freio e nem qualquer desenho.
Aproximas-te como um íman e as tuas mãos entram no jogo do tecido que dança de forma ascendente. Vejo-me enroscada no teu corpo, subindo a parede de costas, apreciando a sua nudez e a sua diferente temperatura.
Logo sofrerá do mesmo calor...- Último pensamento que dispo perante a hora do não pensar.
Concentro-me no som que te escapa da boca, sinto o tecido a rasgar.
Esqueço tudo o resto, entrego-me a uma vontade que não cansa...

Fotografia de autor desconhecido (contém hiperligação para a página de origem)

quinta-feira, 31 de março de 2011

Doce arrepio


Sobressalto e suor...
Toco-me como se quisesse testar a própria realidade.
Acordei e tenho o coração a galope e a fronte molhada.
Sorrio e recordo...
No meu sonho chovia e eu corria por entre os espaços vazios, completamente ao acaso.
Não havia qualquer confusão. A cidade parada num dia de chuva e os espaços verdes completamente desabitados.
Um movimento na folhagem capta-me os sentidos.
Estou alerta e em posição. Sou tanto a Gazela como o Tigre e esperar é preciso para desenhar a acção.
Provavelmente o salto será ágil.
Agora se fujo ou se fico, depende somente da descoberta que realizar.
Um movimento na folhagem que me atrai.
A água escorre no rosto como se fosse eu a sua fonte. Aguça-me o instinto quando entra pela boca e oferece ao paladar o rastro do que tocou.
Eu imóvel, aparentemente.
O meu pensamento é arco e flecha.
Estou atenta.
Um movimento na folhagem, um alvo marcado.
Enquanto espero o sol espreita por entre nuvens preguiçosas.
Eu que tanto gosto de moldar as nuvens sorrio para o sol. Distraio-me!
Não percebo que estás ali.
Anónimo, desconhecido, perigo.
A tua respiração é ofegante. Também tu gostas de correr quando todos os outros se recolhem.
Corres de peito aberto, por caminhos que o acaso te ofereceu. Espaços verdes completamente desabitados...
Completamente, não!
Um movimento na folhagem atraiu a tua atenção.
Estavas alerta e em posição.
Provavelmente o salto seria ágil, se não avançasses destemidamente para a descoberta, de arco e flecha na mão.
Por entre a folhagem, estou eu.
Sorrindo para o sol, distraída, desviei a tua atenção.
Assim sem saber, um frente ao outro. Ofegantes e expectantes.
Se te moves, eu me afasto.
Se me afasto, tu correrás atrás.
Correr seria pura perda de tempo... sinto o doce arrepio...
Sobressalto e suor...
Toco-me como se quisesse testar a própria realidade.
Acordei e tenho o coração a galope e a fronte molhada.
Sorrio e recordo...