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quinta-feira, 23 de abril de 2015

Encontro com o destino, numa rua que se desce...

Ele sorriu, enigmático... Desafiou o tempo e desceu a rua.
Apostava num reencontro que não tinha lugar ou hora marcada e ganhou... Decorridos poucos metros,  a encontrou e em curta distância, seguiu-a de longe. 

A marcar o passo, um caminhar paciente... As possibilidades, ainda que remotas, eram provocadoras... E de tal forma o provocavam que, volta e meia, tropeçava absorto em pensamentos.
[O destino o favorecia] - pensou, ainda que ela não o visse, como tantas outras vezes não o viu...

Ela sorriu, misteriosa... Desafiou o tempo e desceu à rua.
Caminhava ao acaso, sem lugar definido e sem hora a marcar o passo. Algo a impelia a ir... Sair, sem razão... Não apostava (tem aversão a apostas)... No entanto, a estrada é feita de reencontros e esta ideia de tal forma a provocava que, volta e meia, tropeçava absorta em pensamentos.
[O destino... Tu e eu...] - pensou, ainda que sabendo que se o encontrasse, voltaria a fingir que o não tinha visto.

Desafiavam o tempo, numa rua que tantas vezes desceram juntos e outras tantas subiram afastados. No somatório, perderam para as vezes que apenas caminharam por ali, completamente sós e em busca um do outro. Sorriam para si, até que... [o destino os tentava, colocando-os num frente-a-frente que não poderiam desmentir e por reflexo ou instinto...] Ela parou e ele susteve a respiração. Rindo, de peito aberto, ela olhou para trás e o viu... Olhos nos olhos, respiravam, finalmente...


[O destino o favorecia] - pensou, enquanto a seguia, como tantas vezes o fez, acelerando o passo... Ela caminhava apressada, porque lhe fugia, como sempre fugiu. Ainda assim, esperava-o... Uma vida e noutra vida... Um jogo de amantes... Um preliminar intemporal... A adrenalina de tão pura empurrava o coração do peito. Ele tremeu, ela tremia.

Caminhavam lado, a lado. Era um caminhar expectante... As possibilidades, ainda que remotas, eram tão provocadoras... E de tal forma os provocava, que volta e meia, ambos tropeçavam absortos em pensamentos... 
Ele esticou a mão, como se os dedos fossem ímanes, na esperança que ela a agarrasse. Ela sorriu, como se fosse o sol do meio-dia, e sem uma palavra, segurou-lhe a mão.

[O destino os favorecia] - pensaram, ao sentir as primeiras gotas de chuva. A rua deserta, o céu a abrir o caminho, um prédio a oferecer abrigo... Uma corrida, sem aposta, onde se perde a roupa e se ganha tudo o resto... Convite mudo, que não se recusa, quando nas mãos se segura o amor de uma vida.

O amor... Sem lugar, sem hora marcada... Ganhou.
O Tempo... Alaga, enquanto espera... Numa rua que se desce...

Fotografia de Fábio Martins (contém hiperligação para a página do Autor) 

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

«Pele...»


Ao cessar o barulho do motor, o silêncio chegou-lhe aos ouvidos como um som gritado a distância. Não sabe como ali chegou ou porque parou. Absorta, permanece imóvel observando a invasão húmida que satura o ar. O olhar suspenso segue o contador dos minutos e os pensamentos perdem-se por entre fios de cabelos que se alisam no movimento repetitivo dos dedos.
«Pele…»

O som generoso da chuva e o eco dos seus salpicos fazem-se sentir, arrancando-a do estado letárgico a que se entregou. Água e pele, pedras a um charco provocando ondas, gerando um impulso que lhe percorre o corpo. Em resposta, os movimentos mecânicos param e os lábios distendem-se num sorriso que compreende tudo o que é necessário e o que deve ser feito. «Pele…» - A sua pele antes e mais do que qualquer outra.
Subitamente, como se estivessem livres de todo o torpor, os dedos deslizaram pelo pescoço, cercando sorrateiros o emaranhado de botões, livrando-a habilmente de toda a roupa.   Pudesse de igual modo despir-se de todos os seus receios, mas a verdade é que se sente hesitar e receia ser tomada pela indecisão. Então, de olhos postos no tecido protector, inspirou - conciliando os seus receios e os seus desejos – e antecipando-se à crescente hesitação, abriu a janela e atirou as roupas fora.

Assim permaneceu breves minutos na noite escura, inalando e exalando compassadamente, estabilizando o ritmo cardíaco. Oculta, sorria empática ao contemplar as sombras apressadas fustigadas pela chuva, corpos encolhidos, vergados por outras vontades. Também ela conhecia uma vontade vergada, rejeitada ou negada. Também ela reconhecia no seu próprio corpo as marcas curvadas da submissão. Assim, fora um dia e por demasiado tempo!

Vestiu a gabardine, que tinha passado despercebida no banco de trás, ligou o carro e concentrou-se na imagem mental que se afigurava como sendo o seu caminho e destino. O trajecto fê-lo voando, animada pela visão de memórias futuras. Imagens nítidas, marcadas apenas pela ausência da cor, contrastando com uma pele ornamentada em tons de rosa e de vermelho ruborizado.
«Pele…» - A sua já não lhe bastava.

Ao chegar à praia, encontrou na agitação marítima um eco do tumulto que sentia. Espelho dos seus receios e desejos, a espuma rendia-se corajosamente na areia branca, incentivando-a a prosseguir no seu caminho. A expectativa crescente abre comportas e uma mistura explosiva, aromática e erótica percorre-a como uma corrente eléctrica, fazendo-a caminhar com a agilidade de um felino. Um único pensamento, um enfoque claro na direcção a seguir… Ele já a esperava e ela fizera-o esperar como ninguém.
«Uma vida! » - Dizia-lhe.

A cada passo, um gesto [a certeza dos seus sentimentos, desfazia todos os nós]. Os seus olhos, habituados à escuridão, orientavam-na rumo à casa na praia, à porta aberta, à silhueta masculina. Ele estava à porta, no olhar uma ânsia que tomara lugar por demasiado tempo.
«Pele...» - Ele queria-a e a sua já não lhe bastava.

Tentou esboçar um som de boas-vindas, mas as ondas do mar, em rebentação costeira, apenas facilitavam a linguagem dos olhos. Abriu os braços, fechou-os num abraço...

Mais tarde, teriam de procurar as marcas da sua passagem, conectando à terra o sonho que ora viviam. Entretanto, cada toque aproximava-os mais da sua forma etérea e a pele, que tanto queriam, era já uma mescla de fragrâncias invadindo todo o ambiente.


terça-feira, 13 de setembro de 2011

Brilho!

Autor desconhecido (contém hiperligação para a página de origem)

"Assim como lavamos o corpo devíamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa."
Fernando Pessoa

Dezasseis horas e o sol aperta e sopra secando a garganta, enquanto fios de suor escorrem pelas costas do vestido. A sede é de tal maneira que para a saciar entro no café mais próximo, ignorando os sinais de proibição há muito impostos. É um risco entrar ali, mas na verdade naquele lugar específico apenas te encontrei uma vez e isso foi literalmente no século passado. Diga-se de passagem que desde que ali te vi, nunca mais lá entrei...
«Cresce rapariga!» - Penso e entro.
A pastelaria está praticamente vazia, o que me faz suspirar de alívio. Contudo, o curto trajecto até ao balcão incomoda e irrita. Está tudo igual, desde a decoração à disposição das mesas. Talvez me sentisse melhor se não restasse absolutamente nada do que ficou gravado na memória.
_ Um café e uma água fresca, por favor! - Peço ao empregado, enquanto olho em volta como se não soubesse o lugar onde me iria sentar. Na verdade hesitei entre sentar-me na tua mesa ou ficar de frente para ela.
«Cresce rapariga!» - Penso e sento-me num lugar ao acaso, forçando o olhar a fixar-se num qualquer outro ponto. Como se precisasse olhar...
Poucos minutos depois, menos ansiosa e de sede saciada, passeio os dedos curiosos pelo jornal diário. A pressa de sair foi-se diluindo à medida que a leitura substituiu as preocupações iniciais por outras mais comuns à maioria dos cidadãos: crise e insegurança na ordem do dia.
Enquanto voltava as páginas do jornal, o frenesim no café ora aumentava ora diminuía num ritmo tão constante que me permitiu abstrair destas mudanças no ambiente. Uma hora permaneci no mais absoluto silêncio e ainda me dei mais alguns minutos após o dobrar das desgraças noticiadas. Sentia-me mais corajosa, capaz de quebrar muitas outras rotinas, de viver mais a vida. Assim me sentia até que me levantei e te vi ali, onde já não pensaria voltar a encontrar-te...
Sorriste. Sorris sempre. Assim, como se a vida te desse um acesso privilegiado aos raios de sol.
«O meu deserto...» - Penso enquanto arrasto as pernas nervosas, maldizendo a hora em que lá entrei ou o simples facto de não ter pago logo a conta.
No meu caminho estás tu e o espaço é tão reduzido que te ouço respirar. Um formigueiro percorre-me todo o corpo e as imagens que me tomam de assalto fazem-me estremecer: lábios, língua, hálito, húmido, frio, calor, suave, brilho...
«O meu inferno...» - Penso enquanto me obrigo a partir com uma sede maior da que tinha horas antes. - «O teu corpo... Quero-o tanto que o meu me dói...»
Dobro a esquina, coloco os óculos escuros e fixo um objectivo no horizonte, algo que me faça andar, um lugar para onde ir. No rosto sinto a nascente transbordante, lágrimas ou desejo, qual quebrará primeiro…
Afasto-me para que os possa libertar a sós, evocando o rio das impossibilidades que existiu sempre entre nós: ele não virá, mas se viesse eu não iria com ele.
Procuro refúgio num antigo jardim, de uma casa esquecida no tempo. Pedra corrompida pelas persistentes trepadeiras, erosão silenciosa, refúgio perfeito de um tempo que volta e meia pára.
Encostada a uma parede permito-me apenas respirar, os olhos ainda estão cegos e o corpo em choque.
«Ficarei apenas o tempo suficiente para que as próprias ruas se esqueçam que passei ali…» - na verdade dou tempo para que a vida redefina os seus caminhos para que não nos cruzemos novamente.
Mas hoje interferi com o normal curso da vida e o inesperado, tantas vezes imaginado, agarrou as rédeas e aproveita o momento.
O portão chia uma vez ao abrir, outra ao fechar. Os passos arrastados marcam o pesar de quem chega. O som ecoa nos ouvidos, como um som isolado e uma frequência singular que se alinha e interfere com o pulsar do meu coração. Não esboço o menor movimento até que os meus olhos, pregados no chão, se fecham e estremecem perante o sol que irrompeu pelo jardim.
Olho-lhe nos olhos sabendo que a cegueira crescerá para além deste tempo suspenso. Uma pausa no universo permite, momentaneamente, que uma ponte, desenhada no olhar, una dois mundos. Assim, permanecemos em silêncio sentindo o pulsar, o alinhamento, a bênção de um momento propício e perfeito.
A luz crepuscular não diminui a temperatura, antes confere ao ambiente uma qualidade do irreal na qual nos sentimos tão especiais. A cor devolvida à face inunda os lábios vacilantes, tornando-os num jardim florido em tons de rosa enrubescido.
Ele sorri e ela é ri… Impossível não rir… Nunca o conseguiu!
Um passo dado, braços que se estendem, bocas que se confundem, dedos que libertam botões… É a própria liberdade que os acorrenta no corpo de um no outro. Pele sobre pele. Ouro e platina. Brilho até que a ponte se desfaça e o rio os mantenha em margens opostas.
Se eu quisesse ver-te, saberia onde...
Os caminhos que evito, as paragens que não faço são pequenos gestos que me dizem - ainda que o não queira saber - que te levo comigo. Escapei de ti, é certo, mas contigo deixei tudo o que queria viver.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Esculpidos na pedra

Autor desconhecido (contém hiperligação para a página de origem)

Trote selvagem, riso aberto até às pontas do cabelo esvoaçante.
Monta como vive, ignora o perigo.
«Só assim sei que vivo!» - Costuma dizer.
Não sem aviso, parte, uma vez mais, sozinha rumo à trilha desconhecida.
Tenta um caminho diferente por mera precaução. O destino está cravado no coração e a pele sabe o caminho de cor.
Procura água e vai ao seu encontro.
Não é uma água qualquer... A fonte é subterrânea, a corrente é subtil. É um lago com vida, sempre fresco e limpo. Aqui e ali pequenos animais salpicam a superfície.
O lugar está escondido dos demais e nunca lá se viu viva alma. [Apenas a sua se despe e mergulha lá o corpo.]
Nada nua, em comunhão, sem perturbar o ambiente. O gesto não cai no vazio. A sincronia do movimento é objectiva na trajectória. No meio do lago existe uma pedra com o seu corpo desenhado, esculpida nas horas que ali permaneceu deitada.
«Que se esconda o lugar para que me possa revelar.» - Pensamento que descobre quando o sol se vira para a mimar. Dá-lhe o corpo a dourar e adormece tranquila.
Trote selvagem, riso aberto até às pontas de um cabelo rebelde.
Monta como vive, ignora o perigo.
«Só assim sei que vivo!» - Costuma dizer.
Não sem aviso, parte, uma vez mais, sozinho e sem rumo definido.
Tenta um caminho diferente por mera excitação. Acredita na voz que lhe chega do coração e que pulsa sob a pele:
«Procura água e vai ao seu encontro. Não é uma água qualquer...» - Pensamento que descobre sempre que aperta as rédeas na mão.
A sincronia do movimento é objectiva na trajectória, o gesto não cai no vazio. Procura sinais de água e segue-os em seu caminho.
Num lugar remoto, erguem-se majestosos canaviais, muito faladores entre si. Escondem o burburinho do rio que passa ali. Fingindo distracção engana os guardas de cana, descobre a corrente e segue-a.
Entre os rochedos, o lago abre-se imenso e cristalino. Sem perturbar o ambiente, observa os animais que aqui e ali chapinham na água. No meio, uma pedra embala e ela dorme...
Despe a alma e mergulha o corpo. Nada de olhar ancorado na alma nua que desperta serena.
Ela é sua...
Ele é dela...
Reza a história que numa pedra, no meio de um lago, se podem ver os amantes imortalizados… Talvez tenham sido naturalmente esculpidos nas horas que ali permaneceram deitados.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O Encantador da Lua


Estou inquieta na minha aparente imobilidade.

Uma estátua pela água e pelo vento esculpida, que se inquieta e que sonha com o movimento que não tem...

Na verdade, desde que saltei do bloco disforme da minha essência, material, vivi uma existência tranquila!

Longe do lugar da minha criação, num recanto ajardinado, passei os meus dias observando a vida sem me deixar perturbar pelo que via e as noites ouvindo sem que o som fizesse eco dentro de mim.

O Tempo, sempre apressado, não tinha qualquer importância e o meu canto, mesmo em noites desertas, não era um lugar solitário...
Tenho por companhia um banco de jardim e a hera que cresce e tece um agasalho improvisado. O banco conhece o movimento diário de estranhos que se sentam sem pedir licença e falam como se não pudesse ouvir. O banco não só ouve, como conta e a hera, que cobre todo o parque, encarrega-se de segredar todas as conversas de todos os bancos.
Há muito que ouvia falar de um ser misterioso, alguém de quem não se conheciam palavras, mas que todos tinham, em algum momento, escutado. Confesso que nunca dei muita importância a essas histórias e que não partilhei do mesmo entusiasmo com que falavam do "Encantador da Lua". Encantador era o adjectivo que reunia o maior consenso e da lua porque este estranho, aparentemente, só visitava o parque em noites de lua cheia.
Certa noite, uns passos silenciaram as cigarras e o meu recanto encheu-se de silenciosos e expectantes espectadores.
O vulto sem rosto nada disse quando se sentou no banco do meu jardim. Ali ficou alguns longos minutos, o tempo suficiente para até o Tempo abrandar... Depois, como se soubesse esperado, ergueu-se e tocou!
Movimento...
Ondulação...
Brilho...
Todos pareciam suspensos e cativos.
O próprio céu derretia-se e as nuvens dissipavam banhando-o com o luar.
Eu não fiquei indiferente, procurei ver e ouvir como quem quer sentir. Perturbei-me com a intensidade sonora e senti... Emoção!?
Olhei, como quem quer ver...
Primeiro vi o arco, depois as mãos e a seguir um rosto que tocava com os olhos centrados no coração.
Sorri. Fechado no seu mundo de música, aquele melódico e encantador vibrar trespassava todos os meus poros e libertava-me da água absorvida e nunca antes notada. Deveria pesar porque me senti mais leve...
Deixei-me ficar a ouvir até que o céu me pareceu mais brilhante e mais próximo. O Encantador da Lua olhava-me com os seus olhos de prata estelar e eu senti-o pulsar dentro de mim, enquanto me deixava levar por um sono profundo.
Não parecia dormir porque flutuava... Foi então que vi os ponteiros suspensos de um relógio, a luz de cem velas lunares, um chão pintado de folhagem vermelha, um prado verdejante e um castelo de onde partiam e regressavam, como uma nuvem colorida, aves de todas as cores.
Na torre do castelo, o Encantador da Lua tocava o seu violino e as notas vertiam como numa cascata do arco-íris, pintando tudo ao seu redor.
Dancei! Rodopiei num tabuleiro de aguarelas pintando também o meu caminho, olhos fechados, coração palpitante, alma leve... Sabia o caminho de cor.
Já no castelo, encostei o ouvido às pedras, acariciei-lhes as arestas e murmurei, sem saber porque o fazia… Voltei!
A gigante porta de carvalho abriu-se e ao entrar outras portas abriam-se sem que lhes tocasse, guiavam-me e o meu coração dizia para me deixar guiar.
À torre subi sem qualquer esforço, estremecendo ao tocar nas pedras das suas paredes cobertas pela hera. Estremecia porque sentia como se tocasse em mim... Fui feita daquelas pedras… Existi!
Já existi antes de ser estátua, antes de ser pedra. Amei e adormeci vítima de um encanto, fruto da inveja e da cobiça.
Aquela música – inspirei como se a respirasse – foi escrita para mim... Tinha o dom de me fazer lembrar, ainda que não quebrasse o feitiço.
Ao aproximar-me do Encantador da Lua senti um calor diferente das tardes de Verão no meu recanto florido. Era como se o sol estivesse dentro de mim e ao vê-lo, sorria mil raios de luz. Recordava…
Do alto da torre, olhei para o jardim colorido que se estendia no horizonte, sei que corri por ali, rindo. Na sombra de um velho carvalho, numa cama de pétalas, lábios de cereja encontraram uma boca de pêssego, cabelos de ébano deslizaram por uma escova de dedos, ventres de um rosa suave e de um puro jasmim entrelaçaram-se como trepadeiras… A lua cresceu intensa e cheia mimou os amantes.
Aos primeiros raios da aurora, o acordar abrupto e a varinha macabra ditaram os termos do castigo. Era a noiva prometida que não quebrara a promessa feita pelo coração e por não renegar a tão forte sentimento, em pedra a transformaram e da pedra construíram a torre carcereira.
Juntos, mas separados para sempre… Um condenado à eternidade, o outro ao esquecimento.
Agora vejo-o como ele me vê, mas antes que lhe pudesse dizer, quebra-se o encanto da lua e regresso ao meu recanto, presa nesta forma de pedra que sente... Uma estátua pela água e pelo vento esculpida, que se inquieta e que sonha com o movimento que não tem… Até à próxima lua cheia...

Autor desconhecido (contém hiperligação para a página de origem)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Uma pena de seda



Acordo com celestiais acordes, uma melodia que invade os meus sonhos e me chama para terra. Pianinho doce que repete, em cada andamento, um «estou aqui».
Procuro a origem da música e tudo que encontro é uma neblina rastejante que penetra todos os
recantos como se procurasse por mim.
Sinto o coração nos ouvidos, aperto-o por entre os lábios, estrangulo-o no abraço das mãos... Tenho medo!Tenho medo porque estás aqui...
Estou descalça, no corpo um vestido da cor do luar... Abraço-me e avanço para onde a névoa é mais densa.Caminhos de puro branco, paredes de algodão, toldam-me a visão e obrigam-me a procurar um ponto de referência. Escolho o pulsar de luz intermitente para onde todas as minhas escolhas me remetem. Não tenho outra opção, mesmo que quisesse não saberia como voltar para trás.
Nuvens de tule branco cobrem um coreto esculpido em marfim acetinado. No centro, um piano de cauda que toca sozinho.
A melodia é envolvente e cresce quando me aproximo.
«Meu amor» - diz. - «Estás aqui!».
Não consigo falar... Penso e respondo:
_ Quem está?
«Estás tu, estou eu» - murmúrio que um bater de asas empurra, suavemente, contra mim.
_ Quem sou e quem és tu?
«Somos um. Apenas um...» - suspira um vento brando da asa criado.
_ Mostra-te! - Reclamo ansiosa.
«Foges...»
_ Fico! - Juro sem prometer.
«Fecha os olhos...»
Fecho os olhos e sinto-me carregada pelo ar. Seguro com força o tecido que lhe cobre parcialmente o peito, aninho-me debaixo do queixo, sem me atrever a abrir os olhos.
Sinto o cheiro perfumado do linho. Vejo branco sobre branco, ainda que permaneça de olhos fechados.
Sinto a camisa deslizar, suave, suave... Vejo pele sobre pele, ainda que sem olhar.
Beija-me com os seus lábios de pêssego carnudo, invade-me o hálito da aurora numa manhã de Primavera.
Toca-me deixando em brasa cada palmo de pele. As mãos, que me mantêm segura, têm a força do Verão.Sinto-me perder em delírios de linho...
O corpo não aguenta e forma um arco involuntário, enquanto os meus dedos seguram as rédeas de um cabelo negro como a noite. Os meus braços incentivam-me a percorrer-lhe as costas, agarro-me à seda da sua pele e puxo-o para mim... Voamos juntos, bem alto, como um só...
No êxtase abro os olhos e mergulho, por instantes, num caudal de ternura.
_ Amor, estás aqui! - Não contenho o suspiro na minha voz.
Acordo, em sobressalto. Desconcertada, olho em redor e não vejo nada de novo.Afinal, tudo não passara de um sonho.
Como que a responder, vinda dos meus cabelos, uma pena de seda com cheiro perfumado de linho caiu-me gentilmente nas mãos.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Sim, amor espero por ti

Autor desconhecido (contém hiperligação para a página de origem)



Arde a madeira na fogueira e a pele se estende em torno do braseiro, é o meu regaço que te faz sentir em casa, sou eu o teu mundo inteiro.
No gesto a paixão ardente que me despe solenemente. Na boca a palavra que me seduz e nos teus braços o arrebatamento que me transporta.

Na muralha esperei ver-te chegar do campo de batalha, coberto de sangue e nos olhos o terror de me deixar indefesa.
Sim, espero por ti amor.
Se dispo o kimono, deixo alva a lua no meu corpo e o teu olhar cintilante vê em mim o esplendor.
Sim amor, espero-te!

Serei nos teus sonhos sempre jovem. O nosso jogo um bailado. O amor esse é trágico como o destino que a todos guarda.
Sim amor, espero por ti ainda que sabendo que definho e quando chegar a hora serei a última estrela a despedir-se do dia.
Amanhecerei eternamente para que no campo de batalha te guarde. Combate antes do raiar do dia, porque é durante a noite que tenho mais força.

No crepúsculo dos teus sonhos entrarei na tua tenda e de olhos no teu rosto, perdida no perfume do teu cabelo, o meu corpo será um arco e a tua flecha o meu alvo perfeito.
Brande aos céus pela vitória que te anuncio, derrama o sangue que lavo com as minhas lágrimas.
O meu nome é aquele proferirás, ontem Manuela, hoje Beatriz.
Serei todas elas e nenhuma te fará mais feliz.

Descanso em paz, porque um dia chegarás, ainda que nesta vida já não tenhas tempo.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Quando cai o véu

Autor desconhecido (contém hiperligação para a página de origem)
Se de noite chorares pelo sol, não verás as estrelas
Tagore, Rabindranath

Recordo os dedos pequeninos colados ao vidro da janela desenhando os contornos de um céu cintilante, como se esticasse as asas e pudesse seguir o feixe de luz de uma lua cheia, numa noite sem nuvens.
A noite é mágica e com ela, eu também o serei - assim pensei outrora!
A noite permaneceu mágica até ao momento em que o sol me ofuscou e o meu corpo revestiu-se de véus, cuja leveza permitia receber tanto calor.
Perdi a Lua! No seu lugar surgiu um lago de gelo, cenário de um bailado solitário.
Perdi as Estrelas! No silêncio da noite deixei de elevar o olhar, serpenteei pelo silêncio das recordações, atiçando as brasas, mantendo a chama brilhante.
Perdi-me em torno dessa fogueira! As asas transformaram-se num sopro e os véus fluíram presos a um corpo ondulante.

Peregrina de mim mesma, templo oculto e sem culto. A realidade é um complexo sistema de casulos.
O Tempo continuou sem incómodo, tem um ciclo a cumprir. A cada ciclo completo um véu se desprende e a ilusão é retalhada pelas traças que eclodem. Sim, nem todos os casulos albergam a larva que dá lugar à borboleta.

Seduzida por um sol peregrinei na noite de olhos postos no rubor das faces, na contracção das coxas, nos lábios mordidos por pedidos suspensos. A noite tornou-se o espaço do suspiro solitário, do caminhar descalço sem rumo e sem sorte.

Quis um dia a Lua resgatar-me, reclamando a minha amante energia. Ao abrigo da noite e à luz da sua magia, os véus desprenderam-se a cada passo dado em redor do meu inferno. Encontrei a face da verdade que os meus sentidos ofuscaram.

O meu sol não é mais que um rochedo negro. Uma falsa tábua de salvação, uma frágil muleta que a ilusão pintou e reforçou no devir do Tempo.
O gesto que me elevou nos ares perde a força a cada verdade revelada. A mesma verdade que no passado me fez recuar perante a fogueira. Não tinha então pecados para queimar!

Cai o último véu. Nenhum no covil de Narciso.
O meu falso sol não é mais que a negação do Amor, um logro de Loki, um sonho de Afrodite.
O rubor invade-me as faces, culpa ardente.
Os meus dedos percorrem o terreno fértil, esperança suplicante.

Dispo um único véu para um banho de lua sob o olhar das estrelas.
Liberto-me!


sábado, 13 de novembro de 2010

Pequeno cosmo

Autor desconhecido (contém hiperligação para a página de origem)

Vinte anos passaram desde que aqui vim... Não dei pelo tempo passar...
Tinha prometido que na primeira oportunidade voltaria a este lugar. Não vim mais cedo por receio de acordar águas que se agitam à menor brisa.
Mas esta noite não poderia estar em mais lado nenhum... A mesma noite, vinte anos depois... Agora, beberei sozinha e brindarei à lua e às estrelas que permanecem no lugar, tantos anos depois.
O portão está aberto, o espaço acessível, o banco deserto.
Avanço cautelosa, coração em sobressalto por cada gargalhada que parece ouvir. As nossas vozes estão gravadas naquele lugar e as emoções estão ao rubro. Os sentidos recordam-se, pensei que tivessem esquecido.
Sorrio para os jovens clandestinos que revejo ali, naquela hora e naquela noite... Não sabem da sua sina, deixo-os assim. Tudo o que posso fazer é agradecer-lhes pelo momento em que existiram mais corajosos e mais verdadeiros do que alguma vez viriam a ser. Ali estavam eles representando para mim um diálogo que sabia de cor.
Está calor, refresco-me na espuma borbulhante da taça improvisada.
Absorta na espiral de um tempo perdido, perdida para o movimento presente. Alheia ao que me cerca, não dou pelo estranho chegar. Um vulto de caminhar apressado como se quisesse recuperar os minutos do seu atraso. Também ele vinha para aquele lugar. «Não é só nosso» - segredei como se os meus jovens conhecidos pudessem escutar...
Suspirei e ignorei o estranho... Nenhum sinal de alerta, nenhum perigo anunciado. O momento era de contemplação, a cena decorria perante os nossos olhos e os diálogos retomavam o seu curso.
Escuto o som da felicidade, rio-me também. É amor e eles não sabiam, não o queriam, querendo… Antagonismos próprios da idade.
Retomo a linha do diálogo em pensamentos que fluem alto, escapa-se o som da garganta, seguido de um murmúrio vindo da sombra. O estranho soprava-me ao ouvido as respostas às minhas falas. Era a voz de um homem que preenchia a voz do menino.
« Ele conhece as palavras.. Conheceu-te um dia.»- Bombeia o sangue carregando-me de eléctrica mensagem.
Os jovens estavam suspensos, olhando o Futuro. Eu via-me forçada a encarar o Presente, segui o som, olhei para trás.
«Ali está ele!» - suspiro da emoção luminosa em meus olhos.
A cena repetia-se, o Passado era Presente e amadurecido. As vozes embargadas pelo pó sufocante nas gargantas respondiam com palavras antigas.
Está calor, refresco-me na espuma borbulhante da taça improvisada. Ele sorriu. Os meus lábios hidratados pelo espumante, ofereciam uma visão de alívio. A hora era chegada e a vontade antiga preenchia o lugar, envolvendo-nos.
Um passo em frente e os nossos corpos assumem o seu devido lugar na história. A cada passo dado sentia que a juventude diluída era bebida pela memória. Agora era o que deixámos continuamente escapar.
Olhos nos olhos, vontades iguais, compreendidas e aceites.
«Ele ria de olhos estrelados, sorriso de lua» - estremeci, rodeando-o como um laço que enlaça bocas em abraços de desejo.
Mãos trémulas, carregadas de ambição carnal, coração pedinte pelo seu destino, lançaram ao vento a roupa que ele vestia. Tarde demais para a peça de roupa que trazia… O vestido era novo, mas a vontade antiga ditou os termos da sua rendição. Caía rasgado na urgência, assim como todos os medos que envolviam aquele momento.
No ar, rodopiando, entre abraços que comprimem os corpos e que os encaixam, palmo a palmo. No colo, ele a carregava para não mais a deixar fugir. O mesmo banco moldava-se para os receber.
Os cabelos negros de um cobriam-se com os cabelos negros do outro. Os dedos entrelaçados pulsavam ao ritmo de uma respiração ofegante. Corpos nus, iluminados por uma luz difusa que emanava de dentro para fora. Não era preciso olhar para lua e para as estrelas, tudo estava ali nos olhos que se perdiam no olhar do outro. O nosso pequeno cosmo, a nossa origem, o amor e vida, o inicio.

sábado, 25 de setembro de 2010

Rosa-dos-ventos

(contém hiperligação para a página de origem)


Na imensa escuridão e na hora mais silenciosa, ainda que os meus olhos permaneçam fechados, raios de luz despertam-me de um sono profundo e notas musicais vestem-me de vermelho e de cristal.


Confio e não temo a brisa que me incentiva a sair do meu nicho...


_Vem...por aqui, anda! - Diz num suspiro, como se há muito me esperasse.

Sigo a fragrância que ilumina o caminho, conduzindo-me por passagens cinzentas até uma janela que pensei não existir.


Lá fora há sorrisos e a melodia convida-me a subir para o parapeito daquela janela, com se de uma porta se tratasse. Subitamente, vejo-me rodeada por mil borboletas, pequenos arco-íris alados que me transportam como não fosse um fardo, apenas penas!


Sobrevoamos um jardim de águas tranquilas que me beijam saudosas!

Toda eu sou brilho, cor, luz... anseio saber para onde me levam, mas receio quebrar o encanto, talvez acordar.


Tudo o que vejo corre-me nas veias como se fosse parte daquele todo. Estarei eu a sonhar?

Sonho ou não, não me rendo, entrego-me!


O vermelho do meu vestido intensifica-se em harmonia com as minhas emoções... sou desejo!


O meu riso ecoa no paraíso e o eco devolve-me mil vozes que me saúdam.

O meu coração é um tambor na selva quando os meus pés tocam um chão forrado de pétalas. A seda acaricia-me e eu agradeço bailando em pontas, tentando preservá-las o mais possível.

Sigo o caminho serpenteado, esculpido pelas raízes criadoras de toda aquela imensa vida.

A cada rodopio sinto mais firmeza, executo uma coreografia de um bailado que os meus gestos parecem recordar.


_Eu sou uma rosa-dos-ventos! - Grito quase tão infantil como o foi um dia, ali naquele mesmo lugar. Um grito que retirou todo o ar, para que respirasse apenas as memórias que eu mesma plantei.


Instintivamente grito de novo em todas as direcções e enquanto a minha voz ecoa no espaço, o eco devolve-me, no silêncio que se fez, apenas uma voz que diz:

_ Tu és uma rosa-dos-ventos e eu sou o cardeal de todos os teus pontos! Se me procurares encontras-me e se me encontrares...

_ Encontro-me! - Completo, como se de uma lengalenga se tratasse, algo repetido ao longo de anos, mantido em segredo dentro de mim.

Ilumino-me como um cristal, a brisa envolve-me e dança comigo, feliz, mas pretendendo confortar-me e num sussurro solene diz:
_Chegou a hora que o galo anuncia aos homens como o nascer de um dia e às almas que é tempo de regressar!
_ Mas, eu sou uma rosa-dos-ventos que perdeu o cardeal dos seus pontos e este espera por mim - Respondo sem compreender!
_ Logo chegará a hora silenciosa que te trará de novo a este lugar e a cada noite se clarificam as memórias, conduzindo-vos rumo ao encontro. Porque o que um perdeu o outro procura. Ambos são partes de um todo, que se completa quando a busca conhece o seu fim.

Autor desconhecido 
(contém hiperligação para a página de origem)

De olhos postos no infinito que se oculta com o raiar do dia, rendo-me à força que me puxa de volta.

Feliz na ignorância, abençoado caminho!
Por hora, saber que existes basta-me! - murmúrio que ecoa no vazio, enquanto os meus olhos se abrem e a minha alma adormece.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Cabelos ao vento


Cabelos ao vento, aconchego quente, sorrisos que os meus lábios não conseguem conter.

Entrego-me por completo ao impulso que nos faz correr rumo ao desconhecido e não tenho medo. Quero sentir o pulsar do meu coração e o suor do teu corpo, enquanto te estimulo a ir o mais longe possível. Estamos unidos por uma mesma vontade, curiosamente sem destino, deliciosamente projectada no caminho incerto que surge à medida que avançamos.


O trajecto que desenhamos com o corpo, não é mais que uma noção vaga dos obstáculos ultrapassados, contornados a uma velocidade estonteante. Não sinto necessidade de ter certezas, não tenho medo de me perder, apenas entrego-me a este desejo que me faz apertar o corpo e impor o ritmo.


O terreno acidentado potencia a aventura, o céu desfaz-se num pranto e modera a temperatura dos corpos que aquecem acusando o esforço. Bebemos das suas lágrimas e recuperamos forças para, de novo, nos entregarmos a uma corrida urgente e sem uma razão aparente.

Aparente… Desejo intensamente chegar a um lugar a que possa chamar abrigo... Nunca pertenci a lugar algum, mas sempre pressenti a existência de um refúgio que potenciará quem sou. 

Na tua garupa e a galope tento a sorte, tento a vida, sinto-me viva! Livre de todos os açaimes e correntes com que me prenderam até que me negasse, até que tivesse medo de sentir, medo de ser quem sou e como sou.

Enquanto me lanço vertiginosamente para a frente, querendo mais velocidade - como se pudesse impedir mais um desencontro - confesso-me ao vento, primeiro subtilmente, como um murmúrio, depois a voz solta-se num grito suplicante:

_Por favor, ainda nesta vida, para que siga a pista na próxima...


Encontro-me no Nada. Não existe qualquer outro ruído para além do meu pensamento. A luz não me fere os olhos, pelo contrário, põe a descoberto o que antes eram apenas contornos.


Suspendo a marcha, mas sinto-me fluir, atraída pela energia que emana de uma nascente, espelho que me reflecte como se fosse uma mulher diferente.


Então, eu sei... É preciso procurar primeiro a felicidade que reside em nós, antes de a encontrarmos no Outro. Sinto na verdade que não existe refúgio mais seguro do que a minha própria fortaleza, primeira linha de defesa e força libertadora.

Não tenho medo de regressar, sinto os passos mais firmes, menos ansiosos. Solto os cabelos e deixo que o Vento nos conduza a casa. Liberto o sorriso que não quero conter e iluminada, aprecio o passeio.
Atrevam-se a viver. Hoje e sempre!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Lendariamente sem opção

A escuridão avança, tal nuvem negra que anuncia a tempestade shakespeariana que reside em mim.
"Ser ou não ser" interrogação pura, genuinamente intemporal. Uma hesitação que me mantém suspensa, ainda que o Tempo não espere e a Vida continue em frente, indiferentes ao meu dilema.
Sinto uma estranha e permanente inquietude, um barómetro que anuncia uma tempestade. Procuro-a no horizonte e iluminada como um farol, encanto-a e espero que se aproxime.
Não temo a intempérie, na verdade, amo a sua alma viajante e os lugares que sabe existir.
Tenho esperança na sua inclemência, nessa força capaz de me arrancar do meu coma vigil.
À primeira golfada de ar, grito! Peço-lhe que me leve a consciência, ainda que me roube o sopro da Vida, ainda que a Palavra fique, neste mundo, infinitamente por proferir.

_Protege-me!- Suplico.- Leva-me para um lugar sem noção de Tempo, em que tudo o que me espera é infinito e concreto. Leva-me para um lugar em que as palavras soltas pelas consciências estão em harmonia com as intenções, porque de contrário não existiriam.
Autor desconhecido
(contém hiperligação de origem)

Sonho com tal lugar, enquanto contemplo a tempestade que passa ao largo e as suas correntes chegam até mim suaves, como brisas que me beijam o rosto, carregando consigo apenas as minhas lágrimas.
Então, escrevo e engarrafo as palavras, na esperança que a corrente as leve para as mãos tempestuosas que não me carregam.
_Leva-as!- Grito-lhe, na esperança que sopre as minhas palavras para aquele tal lugar.
_Leva-as! Para que os teus ventos as depositem na boca certa, que proferindo-as sentirá o mesmo anseio, partilhando comigo esta inquietação que me impele a escrever.
Por ora, estou só, entre mundos cuja fronteira não é visível aos demais.
Protejo a Palavra, esperando que esta corresponda à devoção que lhe dedico.
Ama-me, peço-te! Ama-me, como sempre me amaste!
Suspiro, iluminando a noite com a minha presença.
Pálida e frágil luz num lugar tão inóspito... Mas, eu sou Eva, lendariamente sem opção.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Liberdade e Asa

Autor desconhecido (contém hiperligação de origem)

Olho-te nos olhos e sinto-me entorpecer, lânguidos bigodes sentem estremecer e miro, lasciva, todo o teu ser.
O teu nome é Liberdade, o meu é Asa e quero-te!
Mais do que querer, preciso!


Preciso dessa corrente que potencia a energia alada que me percorre. Flutuo rumo ao desconhecido, ninho que me espera desde que a esta terra desci.


Sou das Terras Altas, onde os espíritos não têm invólucros e as penas são apenas ferramentas e não máscaras que disfarçam a essência dos seres.
Liberta-te do sarcasmo que te aprisiona e sopra para que tenha paz. Sinto-te quente por entre as asas, elevando-me, empurrando-me para longe da multidão.
Isola-me e a sós somos Liberdade e Asa, seres simbióticos, numa relação ancestralmente concubina.

Sim, não concebo liberdade que não confira asas e nem asas que voem sem serem livres.
Eu, Asa, estou nas Terras Altas e tu Liberdade onde estás?
Espero-te para poder partir!

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Cupido

As palavras provocam-nos, atiçam-nos com verbos repletos de intenções até conseguirem de nós o que pretendem: mais e mais palavras.

Curiosamente, ao interagir com uma amiga sobre o amor à primeira vista ou qualquer relação que tenha por base este cliché, a minha mente divagou em direcção ao Olimpo e não mais parei de pensar numa das suas criaturas amorosas, associada a uma imagem eternamente infantil: Cupido!


Escrevia eu à minha amiga que "(...)para além de considerar o miúdo amoroso e seja absolutamente contra o trabalho infantil, eu não consigo destituir o Cupido do seu cargo", mas sou forçada a reconhecer que, se pudesse, tentaria convencê-lo a arrumar o arco e as flechas e em último recurso, tirava-lhe a porcaria do brinquedo ou enviava o menino para um colégio eterno!


Alinhadas as asas, parti das Terras Altas rumo ao desconhecido reino dos Imortais, na esperança de falar com o mítico miúdo.

Não estou autorizada a falar-vos da sua localização e nem mesmo descrever as suas paisagens e cidades, só posso dizer-vos que a crise também lá chegou e com tantos impostos corri o risco de chegar com a Alma penhorada.
Todas as criaturas com que me cruzei, depois de lhes contar o que pretendia, riram a bom rir como se lhes tivesse contado a melhor piada do mundo, e solidárias acompanharam-me até à moradia celestial.
Como se fosse o acto mais natural do mundo bati à porta e perguntei:


_O Cupido está?

A porta abriu-se para um lindo jardim, repleto de corações esvoaçantes como se fossem aves.
Pensei tratar-se de um campo de treino, ou seja, que seria ali que o pequeno praticava a pontaria. Os corações ao serem atingidos, ora passavam a voar aos pares, ora deixavam-se ficar caídos, palpitantes, como se esperassem por algo.

Reparei que o pequeno me observava e ao centrar-me na sua figura notei como era diferente das gravuras da criança de caracóis loiros com asas branquinhas. Perguntou-me ao que vinha e eu deixei o meu coração falar:

_Não sei se já fui um coração deste teu jardim, mas eu não quero o Amor, assim como o Amor não me quer! Vim para te pedir para que guardes as tuas flechas e não mais me tentes com a mais leve esperança de o encontrar.

A criança riu-se e com uma voz pesada como o próprio Tempo, respondeu:

_Todos os que daqui partem não vão sozinhos e quando descem à Terra encontram-se, ainda que toldados pela matéria que lhes bloqueia a vista. É preciso saber ver com o coração, todos têm uma luz que os distingue.

_E o que acontece se perante a luz fecharmos os olhos? - Perguntei-lhe surpreendida pela ansiedade na minha voz.

_E quem viste... viu-te?

_Não, não verdadeiramente! Já te disse que o Amor não é para mim.

_Se não te viu e se não te encontrar, virá procurar-te aqui e daqui partirão de novo para uma nova viagem. Mas se ambos fecharam os olhos, algo neste mundo definhará até à morte.

Só então reparei no seu rosto contraído, nas asas de um cinza tumular e no número de corações tombados naquele jardim. Recordei como o Amor e a Esperança tornam qualquer lugar num paraíso, era impossível não acreditar naquela criança.

_Alimenta-te! - Disse-lhe com firmeza, enquanto desnudava o peito.

Sem olhar para trás, com ele deixei tudo o que tinha e tudo o que te fará procurar por mim ali!

Autor desconhecido (contém hiperligação para a página de origem)