sexta-feira, 23 de julho de 2010

Meu vício


A ti, vil vício tenho a dizer que me tentas
paladar que não esqueci,
calor que sinto entre os dedos
lábios que deixo entreabertos
gesto que levo à boca
na esperança de sentir.


A ti, vil chama que se transforma em cinza
veneno que desejo mais do que nunca,
os meus lábios procuram sedentos
a calma que o teu contacto me transmite.


A ti, vil destino que me assombra
cortina de fumo que envolve e seduz
abraço que tende a não surgir
solidão que aumenta ao diminuir a luz.


Meu vício sem cura possível
remédio que apenas conhece a fuga
uma distância que se quer maior
única forma de resistir segura!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Claramente

Imagino a vida por um fio, um fio farto em percalços,
uns frutos do destino, outros frutos da ilusão,
Uma venda que defrauda os sentidos
Claramente, a mente deriva sem orientação.

Alucina, perde-se em sonhos, pinta-os d’ouro
Encanta-se pelo falso reluzir, falsas intenções
Claramente, um bloqueio do raciocínio
Uma enxurrada mental de emoções.

Defraudada, à deriva, encantada e bloqueada
O olho da mente que não vê pelo órgão da vista, imagina
E na ilusão transforma porcos em pérolas
Respira a névoa dos sonhos, bebe das suas palavras.

Claramente, acredita e segue pelo nevoeiro de uma mente turva
Congela o tempo e a evolução do espírito
Existem momentos de vigília que nos despertam
E nesses engolimos os frutos do destino.

A soma das acções passadas com as presentes
Resultado que diluí o verniz envelhecido.
Claramente, distinguimos a linha que se repete
A tendência de nos concentrarmos numa linha segura 

Ainda que igualmente dura,
O resultado que já se conhece.
E quem não é real, não deve existir
Destino que se desfaz, caminho sem retorno
Factura, ainda que liquidada, marca!

Claramente, no reerguer da fortaleza rejeito o mergulho
Na chama que arderia eterna,
Na imensidão do teu olhar
No abismo do teu nada!
De ti apenas teria os sonhos despidos!
Claramente, cresci!


segunda-feira, 14 de junho de 2010

Cupido

As palavras provocam-nos, atiçam-nos com verbos repletos de intenções até conseguirem de nós o que pretendem: mais e mais palavras.

Curiosamente, ao interagir com uma amiga sobre o amor à primeira vista ou qualquer relação que tenha por base este cliché, a minha mente divagou em direcção ao Olimpo e não mais parei de pensar numa das suas criaturas amorosas, associada a uma imagem eternamente infantil: Cupido!


Escrevia eu à minha amiga que "(...)para além de considerar o miúdo amoroso e seja absolutamente contra o trabalho infantil, eu não consigo destituir o Cupido do seu cargo", mas sou forçada a reconhecer que, se pudesse, tentaria convencê-lo a arrumar o arco e as flechas e em último recurso, tirava-lhe a porcaria do brinquedo ou enviava o menino para um colégio eterno!


Alinhadas as asas, parti das Terras Altas rumo ao desconhecido reino dos Imortais, na esperança de falar com o mítico miúdo.

Não estou autorizada a falar-vos da sua localização e nem mesmo descrever as suas paisagens e cidades, só posso dizer-vos que a crise também lá chegou e com tantos impostos corri o risco de chegar com a Alma penhorada.
Todas as criaturas com que me cruzei, depois de lhes contar o que pretendia, riram a bom rir como se lhes tivesse contado a melhor piada do mundo, e solidárias acompanharam-me até à moradia celestial.
Como se fosse o acto mais natural do mundo bati à porta e perguntei:


_O Cupido está?

A porta abriu-se para um lindo jardim, repleto de corações esvoaçantes como se fossem aves.
Pensei tratar-se de um campo de treino, ou seja, que seria ali que o pequeno praticava a pontaria. Os corações ao serem atingidos, ora passavam a voar aos pares, ora deixavam-se ficar caídos, palpitantes, como se esperassem por algo.

Reparei que o pequeno me observava e ao centrar-me na sua figura notei como era diferente das gravuras da criança de caracóis loiros com asas branquinhas. Perguntou-me ao que vinha e eu deixei o meu coração falar:

_Não sei se já fui um coração deste teu jardim, mas eu não quero o Amor, assim como o Amor não me quer! Vim para te pedir para que guardes as tuas flechas e não mais me tentes com a mais leve esperança de o encontrar.

A criança riu-se e com uma voz pesada como o próprio Tempo, respondeu:

_Todos os que daqui partem não vão sozinhos e quando descem à Terra encontram-se, ainda que toldados pela matéria que lhes bloqueia a vista. É preciso saber ver com o coração, todos têm uma luz que os distingue.

_E o que acontece se perante a luz fecharmos os olhos? - Perguntei-lhe surpreendida pela ansiedade na minha voz.

_E quem viste... viu-te?

_Não, não verdadeiramente! Já te disse que o Amor não é para mim.

_Se não te viu e se não te encontrar, virá procurar-te aqui e daqui partirão de novo para uma nova viagem. Mas se ambos fecharam os olhos, algo neste mundo definhará até à morte.

Só então reparei no seu rosto contraído, nas asas de um cinza tumular e no número de corações tombados naquele jardim. Recordei como o Amor e a Esperança tornam qualquer lugar num paraíso, era impossível não acreditar naquela criança.

_Alimenta-te! - Disse-lhe com firmeza, enquanto desnudava o peito.

Sem olhar para trás, com ele deixei tudo o que tinha e tudo o que te fará procurar por mim ali!

Autor desconhecido (contém hiperligação para a página de origem)

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Apresentação e contacto


Uma relação especial

Desde que aprendi a escrever, notei que existia uma relação especial entre os pensamentos, o papel e caneta. Esta relação era de tal forma intensamente satisfatória, que os livros, de palavras escritas ou em branco, preencheram muitas horas destinadas a brincar. Quando exagerava no tempo dedicado à leitura e à escrita, era incentivada ir brincar para a rua. Ao regressar a casa, trazia comigo mais e mais palavras. 

Muitas dessas palavras eram aninhadas em pequenos cadernos escolares. Muitos desses cadernos foram tomados de mim e algumas dessas palavras foram expostas. Ficava muda quando as via de mão em mão, no caderno original ou na revista juvenil onde chegaram a ser publicadas. Dessas jovens palavras, não tenho recordação.

Naturalmente, o instinto protector levou a criar palavras refugiadas, ocultas num caderno-cofre. Durante muitos anos e espaçados no tempo existiram momentos de partilha, assim como quem abre uma janela e deixa espreitar. O mesmo instinto levou igualmente a que as fechasse e muito tempo decorreu comigo igualmente indisponível para elas.

As palavras cresceram até que as não pudesse conter. Inicialmente, jorraram palavras bravas, irónicas. Depois, o caudal tomou a forma de um rio de águas cálidas, convidativas. Construí uma ponte.


                                                          Broken Wings, o título, o blog

Quando era bem pequena, passava na tv uma novela com uma personagem feminina que me marcou pela sua intensidade.  Não me recordo da sua história, mas fixei a música que tocava sempre que entrava em cena. Anos depois consegui identificar a melodia e de facto existem músicas que são como ecos da mente: Broken Wings, do grupo Mr. Mister, do álbum  Welcome to the real world.

Portanto, welcome to my world. Um mundo de palavras que correm soltas, que descrevem lugares, pessoas ou sentimentos, como um sonho que se vive. Este blog é uma ponte que lanço entre nós, a mensagem é para ti. Vem, entra e fica.

Ema Moura,
emamourabrokenwings@gmail.com





Editado em 2014