segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Com Geraldo Coelho Zacarias


Onde…

Onde você estiver
e em qualquer
da sua vida momento;
quando a frieza da saudade
em confronto com o calor da ansiedade
(mesmo que não queira)o meu sentimento,
que muito a você me impele;
sentirá na sua pele
junto à carícias do vento...

Onde você estiver
e em qualquer
momento da vida sua;
quando por um curto espaço breve
um corpo celeste se opor a outro se atreve;
conclua:
que quando em noite se faz o dia;
(mesmo que não queira)do meu amor a  ousadia,
verá escrito na lua...

Onde você estiver
e em qualquer
momento do seu dia a dia;
quando na terra, no ar, nos céus; os astros
haverão de deixar então os rastros
do meu amor a ousadia;
(mesmo que você não queira)
a sua vida inteira...

de: Geraldo Coelho Zacarias, 31 dezembro de 2012, em PEAPAZ

Concluo…

Concluo:
Por ti, amei a lua
«Amo-a, ainda.»
Crescente no meu peito,
mingua os meus receios,

Por ti, amei o sol
«Amo-o, ainda.»
Aprendi a ver as tuas cores
Absorvi as tuas formas.

No eclipse do sol,
ou na lua nova,
foste brilho e eu amei.
«Amo-te, ainda»
Sob um manto que se dizia negro,
Desejo, iluminou os teus contornos.

Breve carícia,
um momento,
calorosa ansiedade,
toque subtil do vento,
Amor escrito nos Elementos.
«Leio-o, ainda»

Onde quer que esteja,
num Quando que é sempre,
tua, a vida inteira.
«Ainda que não queira»

de: Ema Moura em 5 janeiro 2013, em PEAPAZ


Imagem: José Alambre



sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Elo (Décima segunda carta)



A lembrança que carrego atraiçoa as tuas letras
Vibrações das profundezas dizem-me para não acreditar.
Sim, conheço o ditado e sei que sofro dessa cegueira
Tomo consciência e vejo tudo em que acredito desabar.

A morte do sonho que se recusa a finar é possível?
Existirá alguma forma de o expurgar?
Que me rompam a mente e que me profanem as memórias
Que me retirem todo o sangue e o filtrem antes de injectar…

Pudesse eu esquecer, não desejaria recordar
Sim, dediquei-me à vida que escolhi como se remasse contra a maré
Quantas vezes as ondas me devolveram ao ponto de partida?
Vivo no centro do redemoinho, na mão um fio tecido pela fé…

Não, não é com crueldade que desatas o laço que outrora teci
Que culpa tens de acreditar que o possas fazer…
Não foi nesta vida que o fiz, não pode ser quebrado.
É uma bússola estelar na Passagem das Almas, entre a Morte e o Viver!

Sim, vivo num jardim suspenso no Tempo e no Espaço
Apenas conheço uma noite e uma lua…
Sempre que fecho os olhos revivo a tortura…
[Um dia é só um dia se não estiver preso a uma promessa!]

No meu castelo de ar, a noite é eterna
O Tempo molda-se nas palavras que escrevo,
Deixo que o Vento as leve para o céu estrelado
São recados, fios, cabos…


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Não é amor! (Décima oitava carta)



Estranhamente sem razão, sem qualquer sentido
Um deserto instalado, de frutos desprovido
Árido, agreste, silvestre
Ainda assim, o caminho que sinto…

Não lhe chamo amor
É um sentimento sem nome
Uma irrealidade absurda
Mistura-se com a vida e a confunde

É o som mais leve na cauda da sinfonia
A perturbação no ar, rasto do voo
O gesto secreto do mimo
A primeira gota de chuva

É um passeio de pensamentos desalinhados
Uma subcorrente que desvia
Um gesto não pensado
Uma vontade silenciosamente repetida

Ainda que partilhe da essência do sonho
e do aroma da dor
Ainda que não se possa viver, nem se possa matar.
Não é amor!

Ema Moura

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Nada mais (nona carta)


Profundos versos do qual sou fonte de inspiração
A minha vaidade é agora uma taça cheia
Sim, devo alertar-te que é o orgulho que me instiga.
Tal como foste no Passado, sou eu hoje a areia…

Nada deves construir com o que escorre por entre os dedos
Os teus castelos são frágeis, ainda que de rara beleza
A hora da maré logo apagará as marcas da tua existência
Não o afirmo por despeito ou  carregado de tristeza.

Não deveria ter perguntado se vinhas comigo
Foi o mesmo que pedir à pólvora para beijar o fogo
As palavras também inflamam e os teus olhos…
Os teus olhos têm o brilho do amor e do desgosto.

Os teus olhos têm a força de cem velas
Confesso que senti fascínio, tal foi o espanto!
Uma palavra minha e o Natal chegaria mais cedo…
Estranho poder o meu, assombroso encanto.

Não obstante nada mudou! Nada existe!
Nada guardei  de teu. Nada foi meu.
O ciclo lunar manteve-se ininterrupto
O meu caminho raramente se cruzou com o teu…

Para que não haja engano, repito:
Não houve história
Tudo limpei da memória!

Esquecida e enterrada ficaste tu
que sei como eras,
por que nome respondias …
Nada mais!



quinta-feira, 4 de outubro de 2012

«Pele...»


Ao cessar o barulho do motor, o silêncio chegou-lhe aos ouvidos como um som gritado a distância. Não sabe como ali chegou ou porque parou. Absorta, permanece imóvel observando a invasão húmida que satura o ar. O olhar suspenso segue o contador dos minutos e os pensamentos perdem-se por entre fios de cabelos que se alisam no movimento repetitivo dos dedos.
«Pele…»

O som generoso da chuva e o eco dos seus salpicos fazem-se sentir, arrancando-a do estado letárgico a que se entregou. Água e pele, pedras a um charco provocando ondas, gerando um impulso que lhe percorre o corpo. Em resposta, os movimentos mecânicos param e os lábios distendem-se num sorriso que compreende tudo o que é necessário e o que deve ser feito. «Pele…» - A sua pele antes e mais do que qualquer outra.
Subitamente, como se estivessem livres de todo o torpor, os dedos deslizaram pelo pescoço, cercando sorrateiros o emaranhado de botões, livrando-a habilmente de toda a roupa.   Pudesse de igual modo despir-se de todos os seus receios, mas a verdade é que se sente hesitar e receia ser tomada pela indecisão. Então, de olhos postos no tecido protector, inspirou - conciliando os seus receios e os seus desejos – e antecipando-se à crescente hesitação, abriu a janela e atirou as roupas fora.

Assim permaneceu breves minutos na noite escura, inalando e exalando compassadamente, estabilizando o ritmo cardíaco. Oculta, sorria empática ao contemplar as sombras apressadas fustigadas pela chuva, corpos encolhidos, vergados por outras vontades. Também ela conhecia uma vontade vergada, rejeitada ou negada. Também ela reconhecia no seu próprio corpo as marcas curvadas da submissão. Assim, fora um dia e por demasiado tempo!

Vestiu a gabardine, que tinha passado despercebida no banco de trás, ligou o carro e concentrou-se na imagem mental que se afigurava como sendo o seu caminho e destino. O trajecto fê-lo voando, animada pela visão de memórias futuras. Imagens nítidas, marcadas apenas pela ausência da cor, contrastando com uma pele ornamentada em tons de rosa e de vermelho ruborizado.
«Pele…» - A sua já não lhe bastava.

Ao chegar à praia, encontrou na agitação marítima um eco do tumulto que sentia. Espelho dos seus receios e desejos, a espuma rendia-se corajosamente na areia branca, incentivando-a a prosseguir no seu caminho. A expectativa crescente abre comportas e uma mistura explosiva, aromática e erótica percorre-a como uma corrente eléctrica, fazendo-a caminhar com a agilidade de um felino. Um único pensamento, um enfoque claro na direcção a seguir… Ele já a esperava e ela fizera-o esperar como ninguém.
«Uma vida! » - Dizia-lhe.

A cada passo, um gesto [a certeza dos seus sentimentos, desfazia todos os nós]. Os seus olhos, habituados à escuridão, orientavam-na rumo à casa na praia, à porta aberta, à silhueta masculina. Ele estava à porta, no olhar uma ânsia que tomara lugar por demasiado tempo.
«Pele...» - Ele queria-a e a sua já não lhe bastava.

Tentou esboçar um som de boas-vindas, mas as ondas do mar, em rebentação costeira, apenas facilitavam a linguagem dos olhos. Abriu os braços, fechou-os num abraço...

Mais tarde, teriam de procurar as marcas da sua passagem, conectando à terra o sonho que ora viviam. Entretanto, cada toque aproximava-os mais da sua forma etérea e a pele, que tanto queriam, era já uma mescla de fragrâncias invadindo todo o ambiente.